quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O Brasil nunca teve uma postura ética estável


A ética pode ser compreendida como uma ciência da conduta humana, perante o ser, e seus semelhantes. Concebendo como sua virtude a pratica do bem, que resulta na felicidade dos seres.

O ser humano desde o seu surgimento, sempre foi cercado por preceitos e valores, sendo que por esses requisitos se julgava o caráter, ou até a vida de um homem. A ética é a apreciação das normas da conduta humana. Conseqüentemente ela se torna mais importante do que a moral, pois esta caracteriza as regras que o homem deve seguir numa sociedade, enquanto que a ética é mais abrangente, ela fornece juízos de valores, que julgam o comportamento humano sobre as regras sociais.

O primeiro a organizar essas questões é Aristóteles. Ele classifica as virtudes como a justiça, a amizade e os valores morais, sendo que estes derivam dos costumes e servem para promover a ordem social. Na Idade Média visualiza-se o surgimento da ética cristã, impregnada de valores religiosos, que incorpora as noções gregas de que a felicidade é um objetivo do homem e a prática do bem, um meio de atingi-la.

O primeiro a romper com esses preceitos foi o italiano Nicolau Maquiavel, que defendeu a adoção de uma moral própria em relação ao Estado. Para ele, os princípios cristãos impregnados naquela época eram inúteis e prejudiciais para o desenvolvimento Estatal. No Brasil, é difícil de afirmar que existiu uma postura ética estável. Detecta-se que desde o descobrimento das terras brasileiras, pelos portugueses em 1500, o território brasileiro foi sempre utilizado para exploração financeira, passando assim uma figura do enriquecimento desmedido em detrimento das regras sociais.

Atualmente é difícil discutir os problemas nacionais, sem tocar na palavra ética. Muitas pessoas ficam refletindo sobre essa problemática, tentando achar a gênese, e o porquê, em tão pouco tempo se agravaram tanto as relações humanas sem ao menos se pensar nas crises sociais, ampliando os vazios da insegurança pública e privada dos cidadãos, é ai que surge o interesse de racionalmente compreender este novo paradigma. As pessoas não se sentem mais satisfeitas pelos atos honestos que praticam, a sociedade gira em torno dos poderes e elites financeiras. A falta de princípios morais causam conseqüências intermináveis, onde encaminham o país para as mãos dos detentores do poder.

No Jornal da Tarde, Denise Frossard, transcreve: “(...) a corrupção leva o cidadão a perder a fé nas suas instituições e quando isto acontece, ele se torna cínico ou rebelde. E isto é um golpe de morte na democracia e na estabilidade que ela significa” (1). São situações assim que ensinam a população aplaudir os golpistas, pelo sucesso das gestões públicas, transformado-os em líderes de uma sociedade adoentada e sem forças próprias para escapar do “coma político”. Rui Barbosa, magistralmente, já previa no começo do século passado, que chegaria um momento em que as pessoas “(...) de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto” (2)..
Tornou-se comum, administradores do patrimônio publico, que se dizem representantes de uma nação, subirem ao poder com o escopo de desviar verbas, que deveriam servir para melhorar a condição de vida da sociedade. Entretanto esse montante vai servir para fortalecer sua imagem política ou até para proporcionar o bem estar particular de algumas pessoas.
Grande parte dos estudiosos do assunto defendem uma rápida reação, mas as conseqüências só surtirão efeito, na próxima geração, ou seja, é preciso mudar o sistema educacional a longo prazo. Mas primeiramente, deve-se analisar quem é o alunado brasileiro atualmente. Através das estatísticas divulgadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), é possível descobrir o caos que está a educação brasileira; faculdades de final de semana, universidades de “fachada”.
Os estudantes brasileiros não sabem estudar, porque já vieram de um sistema educacional sem o mínimo necessário de conhecimento. O Brasil esta infestado de “escolas fast food”, dominando o mercado, jogando na sociedade estudantes sem o mínimo necessário de conhecimentos para enfrentar os problemas sociais.

Após a tortuosa passagem pelo vestibular, o aluno consegue ingressar na faculdade, ali ele vai aprender noções básicas sobre os princípios que regem a sua profissão, mas ao momento em que encontrar o mercado de trabalho toma uma surpresa, e descobre que as regras fora da sala de aula são outras, então o novo profissional caí num dilema: ou joga de acordo com as regras, ou será excluído do “injusto” mercado de trabalho. A preocupação, no entanto é que as pessoas tenham consciência que se algo não for feito para solucionar esse problema, a sociedade corre o risco de ser extinta. Essa situação remete o ser humano para a pré-história, onde o homem defendia seus interesses e seus desejos com sua própria força.
Assim o cidadão necessita de alguém que possa auxiliá-lo nas interpretações desse mundo maluco, de alguém que possa literalmente fazer justiça. E o profissional mais adequado para essa operação, é o operador do direito, pois é ele quem vai ter uma maior sensibilidade perante os problemas nacionais.

Já na Antiga Roma a profissão de advogado ganhou sua relevância, a ponto de sua remuneração, diferir dos outros cidadãos. Mas com essa super valorização, ocasionou algumas conseqüências desastrosas, a principal foi a inevitável “explosão” populacional de advogados. Não precisa ser conhecedor de economia para saber como funciona a lei da demanda, que quando se aumenta de uma forma desmedida a quantidade, conseqüentemente, prejudicará a qualidade.
Dentro das faculdades de direito há ainda uma grande dificuldade de adequação do direito positivado para a realidade social. “Os cursos jurídicos, de modo geral, não procuram preparar as pessoas que o freqüentam para capacitá-las a atuarem em situações reais da vida. Distanciam-se muito da realidade verificada em manchetes de jornais, e aos olhos nus”(3). Aí constata-se uma incoerência entre à teoria e práxis. Há um abismo separando os ensinamentos passados no banco da sala de aula e a realidade, inexiste uma simetria entre livros e tribunais.
Mesmo nessa desordem que se encontra o ensino jurídico, o acadêmico de direito tem algumas noções básicas sobre ética, moral e honestidade, onde na teoria todos se consideram como defensores dos direitos humanos, guardiões dos oprimidos, e a palavra mais pronunciada na sala de aula é “Justiça”. Porém depois de formados, “não passam de “pistoleiros contratados”, porta-vozes à venda, esperando o lance mais alto, à disposição de qualquer um, qualquer ladrão, qualquer fora-da-lei, com dinheiro suficiente para bancar os honorários”.
A generalização do antiético trouxe a tona uma descrença em relação ao Brasil. Internacionalmente os brasileiros são conhecidos pelo carnaval, pelo futebol e pela corrupção. Para reverter esse quadro, primeiramente, os cidadãos devem entender que o patrimônio público pertence a todos, e um bem que pertence a alguém deve ser cuidado e fiscalizado por esse alguém. Então os primeiros problemas a serem corrigidos são os relativos ao Estado, chamados problemas de ordem pública. Através de uma forte fiscalização em cima dos administradores, pois quem são eles, senão funcionários do povo.

Toma-se o exemplo de uma empresa particular, se o empregado furta dinheiro da mesma, certamente ele será mandado embora e corre o risco de ser processado criminalmente. Se o ente público tivesse funções semelhantes ao da empresa particular, com certeza, as verbas públicas chegariam ao seu destino sem desvios. Os cidadãos devem também encarar o voto não como um dever, mas sim como um direito de escolher seu representante. O político (a palavra mais certa é administrador) deve ser uma pessoa de confiança e honrar os votos que recebeu, trabalhando em prol da população.

Um parágrafo do livro Homem medíocre de José Ingenieiros, dá uma esperança para ética, afirmando que:

“Nossa vida não é digna de ser vivida quando não a enobrece num ideal. Os mais elevados prazeres se relacionam com a meta da perfeição e sua busca. As existências vegetativas não tem biografia; na história de sua sociedade só vive o que deixa rastros nas coisas ou nos espíritos. A vida vale pelo uso que dela fazemos, pelas obras que realizamos. Não viveu mais quem tem mais anos, mais quem sentiu melhor um ideal. Os cabelos brancos denunciam a velhice, mas não dizem quanta juventude a precedeu. A medida social do homem esta na duração de suas obras. A imortalidade é o privilegio dos que as fazem sobreviver aos séculos e por elas é medida”(5).
É importante que haja uma reflexão sobre os problemas da nação, é preciso haver uma reação, tal reação, autenticamente sadia, dirigi-se para corrigir os graves e freqüentes desvios que se manifestam no agir das pessoas. Devem ocorrer mudanças urgentes como, por exemplo, a adaptação do currículo das faculdades de direito a uma nova visão interdisciplinar, para que o advogado não se limite a interpretações somente legais, mas sim éticas. O escritor Luciano Zajdsznajder deixa bem clara essa idéia afirmando que:
“(...) diante das novas realidades, a espécie humana encontra a ética não mais como uma realidade ideal, como uma exigência colocada pelas forças trascedentes, que assumem o papel de juizes da vida humana. Passa a vive-la como uma nova realidade como uma necessidade de um tempo (...)”(6).
Dessa forma, como afirmava o inesquecível presidente norte-americano J. F. Kennedy dizendo: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas sim o que você pode fazer pelo seu país”. Assim é preciso quebrar paradigmas, devendo ocorrer modificações profundas no comportamento das pessoas, deve-se valorizar mais o ser e não o ter, começando um novo ciclo de vida, onde as pessoas valorizem o ser humano, e não o poder nem o dinheiro, eliminando a hipocrisia da sociedade moderna.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Pratos Culturais

O CEBICHE



A algum tempo venho pesquisando, meio que empiricamente sobre as relações existêntes entre a culinária e a cultura dos povos. Os hábitos alimentares de um povo ou parte dele, revelam com riqueza de detalhes hábitos, costumes cultura e em até certo ponto a meneira de pensar.


O clima, relevo e o posicionamento geográfico influenciou os hábitos alimentares dos povos ao redor do mundo. Até aqui no nosso pais vemos nitidamente essas diferenças nas várias regiões que percorremos. As carnes, condimentos, formas de preparo estão intimamente ligados ao modo de viver de cada região.


Nessa sexta feira gostaria de apresentar um prato típico Peruano, mais precisamente da região costeira, sobretudo em Lima. O Cebiche ou Ceviche, poderia ser considerado um prato exótico para nossos padrões brasileiros, mas é delicioso e considerado no Peru o "prato nacional".

O prato é composto de Peixe (normalmente o linguado ou badejo, ou qualquer outro peixe de carne firme e branca) marinado em sumo de limão com cebolas alho. Pode ser feitos com ostras e camarão também.


O camote (amarillo ou morado), um dos mais de dois mil tipos de batatas Peruana, que pode ser facilmente substituida pela nossa batata doce, que tem o sabor semelhante mas textura diferente e; o Choclo (milho), O milho peruano tem os grãos muito maiores que o nosso mas dá para passar bem com nosso milho tradicional mesmo.


Há que se fazer uma consideração sobre a variedade de batatas do Peru, alias um fato desconhecido da maioria das pessoas é que a batata é originária do Peru!! Isso mesmo!! a batata não é Inglesa como muitos pensam! E no Peru existem mais de dois mil tipos de batatas.

Os colonizadores espanhois levaram a batata para a Europa e as cultivaram. O que seria da culinária Inglesa e Alemã sem esse ingrediente Sulamericano???



O ponto forte do Prato é a pimenta Peruana, o Rocoto, uma pimenta da família do Pimentão, largamente cultivada na Região andina.

Com muito esforço, no método da tentativa e erro, eu e minha esposa conseguimos cultivar aqui no brasil alguns pés e depois de quase dois anos obtivemos os primeiros frutos. Vai bem com qualquer prato, tem um picante suave e saboroso. É o ponto forte do Cebiche, mas pode ser consumida recheada com carne e queijo e levadas o forno, ficam maravilhosas.

Logicamente que nosso post visa comentar sobre as nuances e peculiaridades do prato, e não fornecer uma receita de preparo, mas quem se interessar ou arriscar pode buscar facilmente na internet, inclusive em sites brasileiros. A batata e o milho podem ser tranquilamente substiuidos....o grande problema é quanto ao rocoto, ja fiz diversas experiências com nossas pimentas, mas elas comprometeram significativamente a originalidade do prato. A que mais levemente se assemelha seria a pimenta "dedo de moça"


Com a Ressalva de que necessita ser usada com mais parcimônia por ser bem mais "forte" que o rocoto.
O prato vai bem como entrada ou principal, acompanhado de um bom vinho branco, ou quem sabe até mesmo uma cerveja bem gelada. O Cebiche ao contrário da cerveja, deve ser apreciado sem moderação!!



































quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte IX) Última parte

RACIONALISMO E EMPIRISMO NA FILOSOFIA MODERNA

O século XVI foi uma época de profundas transformações na visão do homem ocidental, época marcada por verdadeira paixão pelas descobertas.
Essa efervescência, que caracteriza a atmosfera intelectual do Renascimento, trouxe consigo, a rejeição das idéias até então vigentes (o prestígio da Igreja e do Estado foi abalado pelo movimento da Reforma).
O homem europeu descobre que há idéias bem diversas das que vinha aceitando como únicas verdadeiras, e passa a ter descrenças e dúvidas quanto ao conhecimento da verdade, expressando um clima de ceticismo (doutrina que nega toda forma de conhecimento da verdade).
Entretanto, era necessário que se encontrasse o caminho certo. E essa era a preocupação que se generalizou a partir do final do século XVI e que irá caracterizar a investigação filosófica do século XVII e XVIII. Duas grandes orientações metodológicas surgem, então, abrindo as principais vertentes do pensamento moderno: de um lado, a perspectiva empirista proposta por Francis Bacon, a preconizar uma ciência sustentada pela observação e pela experimentação, e que formularia indutivamente as suas leis, partindo da consideração dos casos ou eventos particulares para chegar a generalizações, por outro, inaugurando o racionalismo moderno, Descartes busca na razão os recursos para a recuperação da certeza científica.
Explicando melhor as duas correntes:
O termo empirismo tem sua origem no grego empeiria, que significa “experiência” sensorial.
O empirismo é considerado uma doutrina relativa à natureza do conhecimento. Restringiu-se amiúde o termo “empirismo” à filosofia clássica moderna, contrastando-se o “empirismo inglês” (Francis Bacon, Hobbes, Locke, Berkeley, Hume) com o “racionalismo continental” (Descartes, Malebranche, Spinoza, Leibniz, Wolff).
Indicou-se por muitas vezes que para os empiristas modernos a mente é como que uma espécie de receptáculo no qual se gravam as “impressões” do mundo externo. Quando se comparam entre si as filosofias dos grandes empiristas ingleses verifica-se que isto é uma simplificação excessiva. Entretanto, há algo comum a todos esses pensadores, que é a tendência de proporcionar uma explicação genética do conhecimento e a usar termos como “sensação”, “impressão”, “idéia”, etc..
De um modo geral, o empirismo defende que todas as nossas idéias são provenientes de nossas percepções sensoriais (visão, audição, tato, paladar, olfato). Em outras palavras, ditas por Locke: nada vem à mente sem ter passado pelos sentidos.
O filósofo empirista John Locke afirmava também que, ao nascermos, nossa mente é como um papel em branco, completamente desprovida de idéias. De onde provém, então, o vasto conjunto de idéias que existe na mente humana? A isso, Locke responde com uma só palavra: da experiência, que resulta da observação dos dados sensoriais. Todo nosso conhecimento está nela fundado. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos entendimentos com todos os materiais do pensamento.
Assim, toda idéia é uma cópia de alguma impressão. Essa cópia possui diferentes graus de fidelidade. Para ele toda a realidade deve reduzir-se às relações com que se unem entre si as impressões e as idéias.
Um filósofo que ganhou destaque por seu empirismo “total” é Hume que recorreu a um princípio de que se servirá largamente em todas as suas análises: o hábito (ou costume) (ler texto Investigação sobre o Entendimento Humano, conceito de hábito, p. 145 - Hume), pois quando descobrimos uma certa semelhança entre idéias que por outros aspectos são diferentes, empregamos um único nome para indicar. Forma-se assim em nós o hábito de considerar unidas de alguma maneira entre si as idéias designadas por um único nome; assim o próprio nome suscitará em nós não uma só daquelas idéias, nem todas, mas o hábito que temos de considerá-las juntas e, por conseguinte, uma ou outra, segundo a ocasião.
Dessa maneira, ele é um empirista, no sentido que a percepção repetida e habitual de uma determinada impressão ou fato nos leva a elaborar idéias sobre os fenômenos naturais, através de generalizações indutivas.
As conclusões indutivas são percepções repetidas que nos chegam da experiência sensorial, saltamos para uma conclusão geral, da qual não temos experiência sensorial.
A certeza das proposições que se relacionam com fatos não é, portanto, fundada sobre o princípio de contradição. O contrário de um fato é sempre possível. “O sol não se levantará amanhã” é uma proposição não menos inteligível nem mais contraditória do que a outra “o sol levantar-se-á amanhã”. Por isso é impossível demonstrar a sua falsidade. Todos os raciocínios que se referem a realidade ou fatos fundam-se na relação de causa e efeito.
Ora, a tese fundamental de Hume é que a relação de causa e efeito nunca pode ser conhecida a priori, isto é, com o puro raciocínio, mas por experiência. (ler texto Investigação sobre o entendimento Humano, p. 140 conceito experiência – Hume) Porém, a experiência não nos ensina mais que sobre os fatos que experimentamos no passado e nada nos diz acerca dos fatos futuros. E dado que, mesmo depois de feita a experiência, a conexão entre a causa e o efeito permanece arbitrária, esta conexão não poderia ser tomada como fundamento em nenhuma previsão, em nenhum raciocínio para o futuro. Pois, o curso da natureza pode mudar, os laços causais que nos testemunhou podem não ser verificados no futuro. Desse modo, a experiência diz respeito sempre ao passado, nunca ao futuro.
É o hábito (repetição de um ato qualquer) que nos leva a crer que o sol se levantará como sempre se levantou; é o hábito que nos faz prever os efeitos da água ou do fogo ou de qualquer outro fato ou acontecimento natural ou humano; é o hábito que sustem e guia toda nossa vida cotidiana, dando-nos segurança de que o curso da natureza não muda mas se mantém igual e constante, donde é possível regular-se com vista para o futuro. O hábito, como o instinto dos animais, é um guia infalível para a prática da vida, mas não é um princípio de justificação racional ou filosófico. Assim, partindo do hábito e da associação de idéias é que Hume acredita na causalidade. Mas, por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque, responde Hume, aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou hábito em mim. Aparento antecipar a experiência quando, na verdade, cedo a uma tendência criada pelo hábito.
Assim, ele afirma que a conclusão indutiva, por maior que seja o número de percepções repetidas, não possui fundamento lógico. Será sempre um salto do raciocínio impulsionado pela crença.
Questionando a validade lógica do raciocínio indutivo, o grande valor da obra de Hume foi ter deixado um importante problema para os teóricos do conhecimento (epistemologistas). Afinal, é ou não possível partirmos de experiência particulares para chegarmos a conclusões gerais, representadas pelas leis científicas?
Hume sustenta que a repetição de um fato não nos permite concluir, em termos lógicos, que ele continuará a repetir-se da mesma forma, indefinidamente.
Assim, revela o seu ceticismo teórico. Recomenda que os cientistas apresentem suas teses como probabilidades lógicas e não como certezas irrefutáveis.
Assim sendo, todo conhecimento da realidade carece de necessidade racional e entra no domínio da probabilidade, não do conhecimento científico.
Em oposição a essa corrente filosófica temos o racionalismo. A palavra racionalismo deriva do latim ratio, que significa razão. O termo racionalismo é empregado, na filosofia, de muitas maneiras. Aqui, o termo está sendo empregado para designar a doutrina que deposita total e exclusiva confiança na razão humana como instrumento capaz de conhecer a verdade. Ou, como recomendou o filósofo racionalista Descartes: nunca nos devemos deixar persuadir senão pela evidência de nossa razão.(ler trecho do livro Discurso do método – quarta parte, p. 95 – crítica aos empiristas)
Os racionalistas afirmam que a experiência sensorial é uma fonte permanente de erros e confusões sobre a complexa realidade do mundo. Somente a razão humana, trabalhando com os princípios lógicos, pode atingir o conhecimento verdadeiro, capaz de ser universalmente aceito. Para o racionalismo, os princípios lógicos seriam inatos na mente do homem. Daí por que a razão deve ser considerada como a fonte básica do conhecimento.
O texto mais famoso de Descartes, Discurso do Método, além de uma sumária exposição do método, ou das principais regras do método é, também, uma autobiografia de Descartes. Nesse texto não nos diz como devemos proceder para alcançar a verdade, mas como ele, Descartes, procedeu para alcança-la.
Descartes parte da dúvida chamada metódica, porque ela é proposta como uma via para se chegar à certeza e não é dúvida sistemática, sem outro fim que o próprio duvidar, como para os céticos. Argumenta que tais idéias em geral são incertas e instáveis, sujeitas à imperfeição dos sentidos. Algumas, porém, se apresentam ao espírito com nitidez e estabilidade, e ocorrem a todas as pessoas da mesma maneira, independentes das experiências dos sentidos, e isto significa que residem na mente de todas as pessoas e são inatas.
Na segunda parte do Discurso fica patente a prevenção, a desconfiança, em relação a tudo o que nos foi ensinado e que aprendemos à nossa revelia, antes de dispor do pleno uso de nossa razão. Suposição que já revela a essência do cartesianismo, a crença em uma razão intemporal, que seria possível restaurar em sua pureza e integridade, desde que dela fosse excluído tudo o que se deve ao ensino, à leitura, à educação. Confiando apenas na razão, na sua razão, individual e intemporal, Descartes acrescenta que, em relação a todas as opiniões que até então admitira o melhor que podia fazer era rejeitá-las, embora viesse a readmiti-las posteriormente, ou outras melhores, ou as mesmas, desde que “ajustadas ao nível da razão”.
Descartes foi levado a verificar que “o costume e o exemplo nos persuadem mais do que um conhecimento certo”. Método, como o leitor deve saber, significa, etimologicamente, caminho. Seguir um método corresponde, pois, a caminhar em direção determinada, quer dizer, com a consciência do fim a que se quer chegar.
Com tais preocupações procurou um método que, incluindo as vantagens da lógica, da geometria e da álgebra, evitasse, ao mesmo tempo, os seus inconvenientes. Formula, então, as famosas quatro regras fundamentais, que deverão desdobrar-se e multiplicar-se nas Regras para a direção do Engenho.
Primeira regra: evitar a prevenção e a precipitação, só aceitando como verdadeiras as coisas conhecidas de modo evidente como tais e não admitir no juízo senão o que se apresentasse clara e distintamente, excluindo qualquer dúvida.
Segunda: dividir cada dificuldade em tantas parcelas quanto seja possível e quantas sejam necessárias para resolvê-las.
Terceira: Conduzir em ordem os pensamentos, começando pelos mais simples e mais fáceis de conhecer, a fim de ascender, pouco a pouco, por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, supondo uma ordem mesmo entre aqueles que não precedem naturalmente uns aos outros.
Quarta: fazer sempre inventários tão completos e revistas tão gerais que se fique certo de nada ter omitido.
Aqui ele constitui o preceito metodológico básico – é que só se considere verdadeiro o que for evidente, ou seja, o que for intuível com clareza e precisão. Mas a ampliação da área do conhecimento nem sempre oferece um panorama permeável à intuição, e, conseqüentemente, adequado à pronta aplicação do preceito da evidência. Eis por que Descartes propõem outros preceitos metodológicos complementares ou preparatórios da evidência: o preceito da análise (dividir cada uma das dificuldades que se apresentem em tantas parcelas quantas sejam necessárias para serem resolvidas), o da síntese (conduzir com ordem os pensamentos, começando dos objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para depois tentar gradativamente o conhecimento dos mais complexos) e o do enumeração ( realizar enumerações de modo a verificar que nada foi omitido ). Tais preceitos representam a submissão a exigências estritamente racionais. E justamente o que Descartes prescreve como recurso para a construção da ciência e também para a sabedoria de vida é seguir os imperativos da razão, que, a exemplo de sua manifestação matemática, opera por intuições e por análises.
Enfim, o importante e o que constitui o preceito metodológico básico apontado no Discurso do Método é que só se considere verdadeiro o que for evidente, ou seja, o que for intuível com clareza e precisão.
Após toda essa explanação podemos perceber as diferenças entre as duas correntes filosóficas: empirismo e racionalismo, duas vertentes em busca do conhecimento da verdade, cada qual por seu meio.
Com esse texto concluimos nosso modesto curso básico de filosofia, posteriormente estaremos postando sobre Kant, Hegel, Bachelard, Karl Marx, Nietzche e Heidegger e então daremos por concluido essa etapa. Boa Leitura.

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte VIII)

A LÓGICA

A lógica é uma parte da filosofia. Sua definição geral pode ser a seguinte: "ciência que tem por objeto determinar, por entre todas as operações intelectuais que tendem para o conhecimento do verdadeiro, as que são válidas, e as que o não são".
Como um instrumento a serviço das ciências, a lógica preocupa-se fundamentalmente com o aspecto formal de um raciocínio ou argumento. Hoje a lógica encontra-se dividida em lógica tradicional ( origem aristotélica) e lógica moderna – conhecida também como lógica simbólica ou matemática. Elas não são, porém, duas coisas distintas, pois a lógica tradicional está contida na lógica moderna. Essa divisão se deve a razões históricas e didáticas.
A contribuição de Aristóteles para a lógica têm importância até os dias atuais. Com base em suas idéias, desenvolveu-se a chamada lógica tradicional, que foi incorporada e desenvolvida pelos modernos métodos da lógica matemática ou simbólica. Vejamos algumas de suas noções básicas:
Lógica é arte que nos faz proceder, com ordem, facilmente e sem erro, no ato próprio da razão.
Distinguem-se três operações do espírito: a simples apreensão( formação do conceito); o juízo ( composição e divisão ) e o raciocínio. No raciocínio, é necessário distinguir a matéria, ou, dito de outra forma, os materiais inteligíveis propriamente ditos com os quais o raciocínio é construído, e a forma, quer dizer, a disposição segundo a qual esses materiais são reunidos.
A simples apreensão é o ato pelo qual nós atingimos, sem nada afirmar ou negar, um objeto inteligível ( natureza ou essência).Se pensamos, por exemplo, "homem", "animal racional", "inteligente" etc.., fazemos um simples ato de apreensão.
O objeto material deste ato é a coisa, qualquer que ele seja, que apreendemos pelo pensamento. Seu objeto formal é aquilo que é diretamente atingido por ele, é o que chamamos de essência ou natureza , é antes de tudo e por si apresentado à inteligência. Esse objeto inteligível é incomplexo ou complexo. Quando o objeto da simples apreensão é uma única essência ( ex. "homem"), ele é chamado incomplexo. Porém, se há várias essências unidas (ex. "um homem vestido de roupas suntuosas"), ele é chamado complexo.
Ao examinarmos um conceito, em termos lógicos, devemos considerar a sua extensão e a sua compreensão.
Vejamos, por exemplo, o conceito homem. A extensão desse conceito refere-se a todo conjunto de indivíduos aos quais se possa explicar a designação homem. Isto é, você, eu, Pedro, Maria, enfim, toda a espécie humana. Já a compreensão do conceito homem refere-se ao conjunto de qualidades que um indivíduo deve possuir para ser designado pelo termo homem. O conceito homem supõe a necessária existência de uma série de qualidades : animal, vertebrado, mamífero, bípede, racional. Assim, podemos fixar que a extensão de um conceito refere-se à quantidade de seres por ele designados, enquanto a compreensão diz respeito às qualidades que esses seres possuem para pertencerem ao referido conceito.
Considerando a extensão dos conceitos, o matemático Euler (séc. XVIII) elaborou diagramas que revelam a existência de apenas cinco possibilidades de relacionarmos, em termos lógicos, um par de conceitos. Vejamos:
1. completa igualdade entre X e Y ( todos os X são Y e todos os Y são X)
2. X pertence a Y ( todos os X são Y; mas nem todos os Y são X)
3. Y pertence a X ( todos os Y são X; mas nem todos os X são Y)
4. Interação parcial entre X e Y ( alguns, mas não todos, X são Y e alguns, mas não todos, Y são X)
5. Completa diferenciação entre X e Y ( nenhum X é Y e nenhum Y é X)
Quanto a sua compreensão, os conceitos dividem-se em duas classes: concretos e abstratos. O conceito concreto apresenta ao espírito o que é isto ou aquilo e são absolutos ( "o homem") ou conotativos ( 'branco"). O conceito abstrato apresenta aquilo pelo que uma coisa é isto ou aquilo e são sempre absolutos ( ex. "a humanidade").
Quanto à sua extensão, dividem-se em coletivos e divisivos. Coletivos porque se realizam somente em um grupo tomados em conjunto ou coletivamente.("família"). Pelo contrário, os conceitos divisivos se realizam nos próprios indivíduos tomados cada um em particular. ( "soldado")
A distinção do sentido coletivo e do divisivo interessa à teoria do raciocínio: é evidente que se pode dizer, com o conceito "homem" tomado divisivamente ou distributivamente:
Os homens são mortais;
ora, Pedro é homem;
logo Pedro é mortal.
Mas o mesmo não podemos afirmar do conceito "senador" tomado coletivamente:
Os senadores são um corpo eleito;
Ora, Pedro é senador;
Logo, Pedro é um corpo eleito.
A extensão de um conceito (comum) pode ser restringida sem ser no entanto limitada a um só sujeito individual determinado, como ao dizermos "algum homem".
O conceito denomina-se particular. Pelo contrário, quando a extensão do conceito é absolutamente restringida como quando dizemos "todo homem", o conceito é denominado distributivo ou universal.
Universal (distributivo).................. "Todo homem..."
Conceito comum Particular........................................ "Algum homem..."
Conceito singular ........................................................ "Este homem..."
O termo é um conceito articulado que significa convencionalmente um conceito. O termo, considerado como parte da argumentação, divide-se em sujeito ( que recebe uma determinação por meio do verbo ser) e predicado ( que está apoiado no sujeito para determina-lo). O termo, considerado como parte da enunciação, divide-se em substantivo e verbo. O verbo ser significa a existência atualmente exercida ( Pedro é), seja enquanto cópula, a relação do predicado com o sujeito. Em razão da extensão, o termo é singular, particular, universal ou indefinido.
O juízo é o ato pelo qual o espírito compõe afirmando ou divide negando. O ato de julgar ( assentimento) recai sobre uma proposição que tem por matéria o sujeito e o predicado, e por forma a cópula (verbo ser). A cópula "é" ou "não é" tem dupla função. Na medida em que exprime a composição ou a divisão, e então liga simplesmente o sujeito e o predicado, podemos dizer que tem uma função puramente copulativa. ( ex. "um tesouro está escondido aqui"). Na medida em que exprime o ato vital de assentimento ( afirmação ou negação), interiormente realizado pelo espírito, podemos dizer que tem uma função propriamente judicativa. ( ex. "Pedro não é judeu").
Segundo o que seja a cópula a proposição divide-se em simples( categórica) ou composta (hipotética). A composta é ela própria aberta ou ocultamente composta. A abertamente composta divide-se em copulativa (cópula e), disjuntiva (cópula ou), e condicional ( cópula se). A ocultamente composta divide-se em exclusiva ( somente), exceptiva ( salvo...) e reduplicativa
( enquanto...).
A oposição das proposições é a afirmação e a negação do mesmo predicado em relação ao mesmo sujeito. Existem três espécies de oposição: contradição (não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo nem falsas ao mesmo tempo. Ex. "Algum homem é louro" é verdade: logo é falso que "nenhum homem é louro"), contrariedade ( duas contrárias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, mas podem ser falsas ao mesmo tempo. Ex . "Todo homem é justo" é falso, porém isto não prova que "nenhum homem é justo" seja verdade) , subcontrariedade (duas contrárias não podem ser falsas ao mesmo tempo, mas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Ex. "Algum homem é justo" é verdade, e isto não prova que "algum homem não é justo" seja falso) e subalteração (seguem a seguinte ordem: Se A é verdade, I é verdade; se A é falso, I pode ser verdade. Se I é verdade, A pode ser falso; se I é falso, A é falso).
O raciocínio como já sabemos é a terceira operação do espírito. Podemos defini-lo como ato pelo qual o espírito, por meio do que já conhece, adquire um conhecimento novo. Quando raciocina, o espírito está movido por duas proposições percebidas como verdadeiras, colocando a verdade numa terceira proposição. Chamamos argumentação o organismo lógico formado por antecedente e o conseqüente, ou seja, um grupamento de proposições das quais uma é significada como inferida pelas outras.
Vejamos um exemplo típico de raciocínio:
1ª premissa – O ser humano é racional
2ª premissa – Você é ser humano
Conclusão – Logo, você é racional.
O enunciado de um raciocínio através da linguagem é chamado argumento.
As questões de validade referem-se às relações lógicas entre as proposições que formam um argumento, ou seja, se o argumento é correto ou incorreto do ponto de vista da forma.
Podemos indicar a forma lógica válida de acordo com o seguinte raciocínio:
Se todo X faz parte de Y
Se em todas as partes do dia observamos o sol
E se Y faz parte de Z
E se a noite é uma das partes do dia
Logo, X faz parte de Z
Logo, à noite, observamos o sol.
Em termos lógicos, esse argumento é considerado válido, embora a hipótese expressa em uma de suas premissas seja falsa, bem como falsa é a sua conclusão.
Num argumento inválido quanto à lógica, as premissas são inadequadas, para sustentar a conclusão. Esse tipo de argumento é chamado de falácia. Vejamos um exemplo de argumento falacioso: Todos os gatos perfeitos possuem quatro patas
( premissa verdadeira) Mimi possui quatro patas
( premissa verdadeira) Logo, Mimi é um gato perfeito. (conclusão verdadeira)
Independentemente de serem verdadeiras as premissas desse argumento, trata-se de um argumento falacioso, pois, da 1ª premissa, não é válido concluir que Mimi é um gato perfeito pelo fato de Mimi possuir quatro patas. Em outras palavras, as premissas desse argumento não oferecem justificativas lógicas para validar sua conclusão.
As falácias construídas de má-fé, com a intenção de enganar, costumam ser chamadas de sofismas.
Podemos perceber que a lógica é um instrumento muito utilizado nos dias atuais, pois, a mídia, os políticos, ou até mesmo nossa família, utilizam-se desses meios argumentativos, verdadeiros ou não, para alcançar o que desejam, isto é, para convencer um outro ser ( você, eu, qualquer um) de suas premissas e conclusões.
Hoje a lógica tradicional encontra-se dividida, devido a explosão da matematização ( época moderna )..., o que gerou o ramo da lógica simbólica ou matemática...mas isso é um outro estudo...

Referência Bibliográfica:
MARITAIN, Jacques. Elementos de filosofia 2: a ordem dos conceitos - lógica menor. Rio de Janeiro: Agir, 1994.

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte VII)

Aristóteles (384-322 a.C.)

Filósofo grego, um dos mais importantes pensadores de todos os tempos. Nasceu em Estagira, filho de Nicômaco, médico de Amintas II, rei da Macedônia e pai de Filipe. Aos dezessete anos, foi para Atenas, tornando-se discípulo de Platão na Academia. Continuaria por vinte anos ao lado do mestre, até a data de sua morte. Deixando Atenas, foi para Assos, na Ásia Menor, onde Hérmias, ex-membro da Academia, governava. Lá desposou Pítias, sobrinha de Hérmias. Com a morte deste, mudou-se para Mitilene, onde permaneceu por dois anos. Falecendo sua esposa, desposou posteriormente Herpilis, que lhe deu um filho, Nicômaco. Em 343, mudou-se para a corte de Pela, porque Filipe da Macedônia lhe confiou a tarefa de educar seu filho, Alexandre. Em 336, com a morte de Filipe e ascensão de Alexandre ao trono, este rei iniciou as expedições que lhe permitiram construir um vasto império. Nesta data, Aristóteles regressou a Atenas, onde fundou sua própria escola, o Liceu, que se transformou em importante centro de estudos, não apenas filosóficos mas, igualmente, de ciências naturais, dotado de imponente acervo de livros, instrumentos e espécimes. Após a morte de Alexandre, em 323, a facção nacionalista extremada de Atenas dirigiu contra Aristóteles o ódio devotado ao líder macedônio, acusando o filósofo de impiedade. Aristóteles refugiou-se em Cálcis, onde veio a falecer no ano seguinte.
A obra aristotélica era dividida em duas espécies de escritos: uma destinada ao grande público (obras exotéricas), redigida em forma dialética, e outra de caráter demonstrativo e didático, composta para os alunos da escola (obras acroamáticas). Da primeira espécie, restam-nos apenas dois diálogos: Eudemo e Protréptico. As obras dedicadas ao ensino do Liceu foram conservadas pela escola e um grande número delas chegou até nossos dias. Elas se encontram sistematicamente divididas em seis grupos: escritos lógicos, que receberam a denominação genérica de Organon, compreendendo Categorias, Sobre a Interpretação, Analíticos (Primeiros e Segundos), Tópicos e Refutações Sofísticas; estudos da natureza, que incluem dois grupos, o primeiro de estudos físicos, dos quais fazem parte a Física, Sobre o Céu, Sobre a Geração e a Corrupção e Meteorológicos e o segundo de estudos biológicos, referentes ao mundo vivo, onde figuram Da Alma e História dos Animais, composta de estudos acerca de suas partes, geração, movimento; filosofia primeira, que inclui os catorze livros agrupados posteriormente sob a denominação Metafísica; os escritos éticos e políticos, de que fazem parte a Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e Política; finalmente, as obras Retórica e Poética (desta última nos restam somente fragmentos), que merecem, cada uma, um lugar próprio.
Enquanto seu mestre Platão inclinou-se preferencialmente por fazer desenhos de construções sociais imaginárias, utópicas, por projeções sobre qual o melhor futuro da humanidade, Aristóteles, seu discípulo mais famoso, procurou tratar das coisas reais, dos sistema políticos existentes na sua época. Atentou por classificá-los, definindo suas características mais proeminentes, separando-os em puros ou pervertidos. Desta forma, enquanto Platão inspirou revolucionários e doutrinários da sociedade perfeita, Aristóteles foi o mentor dos grandes juristas e dos pensadores políticos mais inclinados à ciência e ao realismo
Aristóteles discordava em alguns pontos de Platão. Não acreditava que existisse um mundo das idéias abrangedor de tudo existente; achava que a realidade está no que percebemos e sentimos com os sentidos, que todas as nossas idéias e pensamentos tinham entrado em nossa consciência através do que víamos e ouvíamos e que o homem possuía uma razão inata, mas não idéias inatas.
Para Atistóteles, tudo na natureza possuía a probabilidade de se concretizar numa realidade que lhe fosse inerente. Assim, uma pedra de granito poderia se transformar numa estátua desde que um escultor se dispusesse a escupi-la. Da mesma forma, de um ovo de galinha jamais poderia nascer um ganso, pois essa característica não lhe é inerente.
Aristóteles acreditava que na natureza havia uma relação de causa e efeito e também acreditava na causa da finalidade. Deste modo, não queria saber apenas o porquê das coisas, mas também a intenção, o propósito e a finalidade que estavam por trás delas. Para ele, quando reconhecemos as coisas, as ordenamos em diferentes grupos ou categorias e tudo na natureza pertence a grupos e subgrupos. Ele foi um organizador e um homem extremamente meticuloso. Também fundou a ciência da lógica.
Aristóteles dividia as coisas em inanimadas (precisavam de agentes externos para se transformar) e criaturas vivas (possuem dentro de si a potencialidade de transformação). Achava que o homem estava acima de plantas e animais porque, além de crescer e de se alimentar, de possuir sentimentos e capacidade de locomoção, tinha a razão. Também acreditava numa força impulsora ou Deus (a causa primordial de todas as coisas).
Sobre a ética, Aristóteles pregava a moderação para que se pudesse ter uma vida equilibrada e harmônica. Achava que a felicidade real era a integração de três fatores: prazer, ser cidadão livre e responsável e viver como pesquisador e filósofo. Cria também que devemos ser corajosos e generosos, sem aumentar ou diminuir a dosagem desses dois itens. Aristóteles chamava o homem de ser político. Citava formas de governo consideradas boas como a monarquia, a aristocracia e a democracia. Acreditava que sem a sociedade ao nosso redor não éramos pessoas no verdadeiro sentido do termo.
Aristóteles compôs dois grandes trabalhos sobre a ciência política: "Política" (Politéia) que provavelmente eram lições dadas no Liceo e registradas por seus alunos, e a "Constituição de Atenas", obra que só se tornou mais conhecida, ainda que em fragmentos, no final do século XIX, mais precisamente em 1880-1, quando foi encontrada no Egito; registra as várias formas e alterações constitucionais que ela passou por obra dos seus grandes legisladores, tais como Drácon, Sólon, Pisístrato, Clístenes e Péricles e que também pode ser lida como uma história política da cidade.

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte VI)

PLATÃO

BIOGRAFIA

Nascido em Atenas, Platão (427-347a.C.) pertencia a uma das maisnobres famílias atenienses. Seu nome verdadeiro era Arístocles, mas, devido asua constituição física, recebeu o apelido de Platão, termo grego que significa“de ombros largos”.
Platão foi discípulo deSócrates, a quem considerava “o mais sábio e o mais justo dos homens”. Depois damorte de seu mestre, empreendeu inúmeras viagens, num período em que ampliouseus horizontes culturais e amadureceu suas reflexõesfilosóficas.
Por volta de 387 a. C. retornou a Atenas, onde fundou sua própria escolafilosófica, a Academia,assim chamada por estar no jardim do herói gregoAcademos. Lá ensinava matemática, ginástica e filosofia. Ele valorizava muito amatemática, por ela nos dar a capacidade de raciocínio abstrato. Essa escola foiuma das primeiras instituições permanentes de ensino superior do mundoocidental.
A maior parte do pensamento platôniconos foi transmitida por intermédio da fala de Sócrates, nos diálogos socráticos,escritos por Platão.
Seriam 30 diálogos, dentre os quais osmais conhecidos; Apologia de Sócrates (onde torna público o discurso queSócrates fez em seu julgamento); Híppias Maior (diálogo sobre - o que é obelo?); Eutifron (diálogo sobre - o que é a piedade?); Menon (diálogo sobre - oque é a virtude?),Teeto (diálogo sobre - o que é a ciência?); Fédon (sobre aimortalidade da alma, faz um relato dos últimos dias de Sócrates), Crátilo (explica a relação entre as coisas e os nomes que lhes são dados.), O banquete(diálogo sobre o amor ao belo), Górgias (diálogo sobre a violência, faz adiferença entre a filosofia e a sofística),e o mais importante, A República ( umtratado completo, onde expõe um sistema de governo e modo de vidaideais).
Através dos diálogos, Platão vaicaracterizando as causas inteligíveis dos objetos físicos que ele chama deidéias ou formas. Elas seriam incorpóreas e invisíveis. Seriam reais, eternas esempre idênticas a si mesmas, escapando á corrosão do tempo, que tornaperecíveis os objetos físicos. Perfeitas e imutáveis, as idéias constituiriam osmodelos ou paradigmas dos quais as coisas materiais seriam apenas cópiasimperfeitas e transitórias. Seriam, pois, tipos ideais a transcender o planomutável dos objetos físicos.
Um dos aspectos maisimportantes da filosofia de Platão é sua teoria das idéias, com a qual procuraexplicar como se desenvolve o conhecimento humano. Segundo ele, o processo deconhecimento humano se desenvolve por meio da passagem progressiva do mundo dassombras e aparências para o mundo das idéias e essências.
Se quiséssemos resumir afilosofia de Platão em uma palavra, poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. Ao admitir a existência dedois mundos: o mundo das idéias imutáveis, eternas, e o mundo das aparênciassensíveis, mutáveis; Platão concebe ao mundo sensível uma certa realidade, masele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia, ou, maisexatamente, uma sombra.
A teoria das idéias de Platãorepresenta a tentativa de conciliar as duas correntes anteriores: aconcepção do ser eterno e imutável deParmênides e a concepção do ser plural e móvel de Heráclito. Para Platão, o sereterno e universal habita o mundo da luzracional, da essência e da realidade pura. E os seres individuais e mutáveismoram no mundo das sombras e sensações, das aparências eilusões.

O VALOR DOS VALORES EM PLATÃO

Tomando por base a obraplatônica - República – Platão revelou o que está em jogo no conhecimento naalegoria da caverna, onde ele mostra a idéia de que conhecer consiste em seliberar das correntes que nos condenam à ignorância e onde ele desvenda que, emúltima análise, o problema do conhecimento se confunde com o da educação. Ohomem deve caminhar desde a opinião até à ciência educando-se gradualmente. Nomundo sensível, os homens são como escravos agrilhoados numa caverna e obrigadosa ver no fundo dela as sombras por um fogo que arde fora. Tomam estas sombraspela realidade, porque não conhecem a realidade verdadeira. De fato, trata-se deoperar a passagem do mundo sensível ao mundo inteligível, e esse movimento é umdoloroso e difícil movimento de alforria. Exige etapas pelas quais a alma seesforça progressivamente por se elevar em direção às idéias, e compreendemos queessa ascensão é, antes de mais nada, uma conversão da sombra à luz, o que nofundo é uma maneira de reentrar em si mesmo para olhar com os olhos da almaaquilo que de início estávamos condenados a deformar, porque o captávamos com osolhos do corpo. A alma cravada às sujeições do corpo, as exigências da razãosufocadas pela onipotência dos desejos e dos interesses, eis os recursos daignorância e a vitória do mal, eis a caverna e sua sedução, eis também a idéiade que a salvação está na fuga. É para essa fuga do sensível que a ciência nosconvoca, é esse caminho de ascensão e de ascese que a educação platônicapropõe.
Desse modo, há uma ilusãoconstitutiva de nossa primeira abordagem do real e o que nos engana é,inicialmente, nós mesmos. As sombras da caverna são essas aparências sobre aparede de nossos sentidos. Deformamos o real porque o apreendemosespontaneamente através de nossas impressões sensíveis, de nossos desejos,nossas paixões, nossos interesses, nossos hábitos, em suma, através de tudoaquilo que nos confina nesse reino de ilusões em que, impotentes para ver osobjetos cujas sombras não passam de sombras, ignoramos que elas são sombras e astomamos por realidade. Esta impotência está ligada à passividade do espíritoacostumado desde a infância a receber sem exame muitas crenças falsas comoverdadeiras.
A educação consistirá, desse modo, emvolver o homem da consideração do mundo sensível à consideração do mundo do ser;e em conduzi-lo gradualmente a avistar o ponto mais alto do ser, que é o bem. Obem corresponde no mundo do ser ao que o sol é no mundo sensível. Como o sol nãosó torna visível as coisas com a sua luz mas as faz nascer, crescer ealimentar-se, assim o bem não só torna cognoscíveis as substâncias queconstituem o mundo inteligível, mas lhes dá ainda o ser de que são dotadas. Poresta sua preeminência o bem não é uma idéia entre as outras, mas a causa dasidéias.
Segundo Platão faz parte da educaçãodo filósofo o regresso à caverna, que consiste na reconsideração e nareavaliação do mundo humano à luz do que se viu fora deste mundo. Regressar àcaverna significa, para o homem, por o que se viu à disposição da comunidade,dar-se conta ele próprio deste mundo, portanto o seu mundo, e obedecer aovínculo de justiça que o liga à humanidade na sua própria pessoa e na dosoutros. Deverá, pois, reabituar-se à obscuridade da caverna; e então verá melhordo que os companheiros que ali permaneceram e reconhecerá a natureza e oscaracteres de cada imagem, por ter visto o seu verdadeiro exemplar: a beleza, ajustiça e o bem. Assim poderá o estado ser constituído e governado por gentedesperta e não por quem sonha e combate entre si por sombras, e disputa o podercomo se este fosse um grande bem.
Platão dá a entender que o poderideal do filósofo-rei permanece como uma hipótese-limite, portanto imperfeita,na cidade real. O homem não é Deus, pode tornar-se semelhante a ele e imitá-lopor via legislativa nas boas ou más imitações.
Daí nascem os diferentes regimespolíticos, monarquia, aristocracia, democracia, dos quais o primeiro éevidentemente o melhor, se for regulamentado pela lei, a democracia sendo opior, já que é impossível a multidão deter a ciência política; mas, se essesestados imperfeitos não estiverem submetidos à lei, então a monarquia é o piorregime e a democracia, o mais suportável.
A aristocracia, da palavra gregaareté, que significa virtude, é o governo dos melhores e dos mais capazes. Atimocracia, de thymos, que quer dizer valor, é o governo no qual os militaresassumem a preponderância; a oligarquia, de olígos, que significa poucos, é ogoverno dos ricos; a democracia, de demos, povo, o governo do maior número, damultidão, e a tirania, de tyrannis, o governo despótico, de um só. Platão não selimita a descrever cada uma dessas formas de governos e o tipo de alma oucaráter humano que lhe é correspondente, mas procura mostrar como esses governosse corrompem, transformando-se uns nos outros.
Na visão platônica a sociedadeperfeita seria aquela em que cada classe e cada unidade estivesse fazendo otrabalho ao qual sua natureza e sua aptidão melhor se adaptassem; aquela em quenenhuma classe ou indivíduo iria interferir nos outros, mas todos iriam cooperarna diferença para produzir um todo harmonioso. Este seria um Estadojusto.
O fim do Estado é tornar o indivíduofeliz, facilitando-lhe a prática das virtudes. Sua constituição é vazada nosmoldes da natureza humana. Correspondentes às três partes da alma distinguem-seno Estado três classes sociais: a) os filósofos, únicos capazes de desempenharcargos públicos; b) os guerreiros, incumbidos da defesa social; c) os operários,encarregados da sua subsistência material.
A cidade platônica não é utópicaporque preconiza a comunidade dos bens, das mulheres e das crianças, e aigualdade dos sexos, nem porque propõe a reforma moral e intelectual do cidadãoe a mudança da estrutura econômica e social da pólis. É utópica porque suarealização é aleatória, dependendo de um caso, o aparecimento e o êxito de umapersonalidade excepcional.
Desse modo, o governante do Estadoideal é um novo Demiurgo que, olhando o mundo divino e eterno das idéias,organiza, consoante a unidade e a harmonia deste, a sociedade humana, fazendoque ela considere como puramente instrumentais os bens empíricos e como fimsupremo a contemplação do Bem em si. O Estado visa pois realizar fins que otranscendem: comanda em nome de valores super-históricos e supersociais, aosquais o incita Eros filósofo.

O REGRESSO PLATÔNICO

Numa visão platônica há umarealidade diversa da mental e da sensível, isto é, o mundo das essências ideais,universais, incorpóreas, imutáveis, eternas, que ele chama Idéias. Assim, há oMundo das Idéias, transcendente, fora do espaço e do tempo, além do mundo e alémdos limites do pensamento. O Ser é a Idéia: esta a grande teseontológico-metafísica de Platão e do platonismo autentico. O que não é Idéia épela Idéia; o que não é Idéia é apenas por e enquanto participa da própriaIdéia.
O primeiro grau do conhecimento éa conjuntura ou conhecimento das imagens ( eikasía ); o segundo, o conhecimentoperceptivo ou crença ( pístis ). São os dois graus do conhecimento sensorial ouopinião ( dóxa ) que tem por objeto o mundo do devir; graus inferiores doconhecer, que ainda não são ciência, que é do universal e não do particular.Começa então a entrever-se obscuramente a verdade e isso incita a alma aultrapassar o sensível.
No livro VII da República, além dereconhecer que a sensação quando se limita ao simples sentir é conhecimentodigno de confiança, a sensação coloca a mente diante das contradições. A almaadverte uma aporia e é obrigada a abrir um "inquérito", isto é, a exercitarsobre as contradições o pensamento ( nóesis ). Na sensação são imanentes oselementos que incitam o pensamento a ultrapassá-la, a transcendê-la: ascontradições do sentido reclamam um esclarecimento e uma composição; por isso asensação é um reenvio ao pensamento. Um reenvio e um indício: as diversascoisas, iguais ou semelhantes formulam o problema do igual e do semelhante quesejam perfeitamente tais. Assim a sensação desperta a Idéia a quem sabe adquirirconsciência do apelo que ela contem à essência eterna e perfeita, da qual sãocópia o grau do ser que está nas coisas e o saber que está em nós.
Há algo de escandaloso naexperiência sensível, e esse escândalo é sempre, no platonismo, o motor dopensamento. Esse escândalo é a experiência da contradição. Que uma realidadepossa ser ao mesmo tempo ela mesma e seu contrário, eis o que é propriamenteininteligível e de natureza a suscitar o esforço de reflexão devido a confusão aque se acha relegado o pensamento. Ora, assim são os objetos sensíveis, eles nãotêm qualquer permanência, qualquer identidade, são e não são o que se diz queeles são. As grandezas sensíveis são portanto relativas, podendo uma quantidadequalquer ser considerada tanto como o dobro de outra, quanto como a metade deuma terceira. Essa afirmação fica explícita no seguinte enigma: " Um homem quenão é um homem, vendo e não vendo um pássaro que não é um pássaro empoleiradonuma árvore que não é uma árvore, bate nele e não bate com uma pedra que não éuma pedra". Seu sentido é: "Um eunuco zarolho visa um morcego empoleirado numsabugueiro com uma pedra-pomes, e erra o alvo." Esse enigma ilustra bem aambigüidade do sensível e o mal-estar intelectual que dele decorre. A alma éentão levada a examinar por si mesma o que lhe causa problema, ela arranca dasseduções do sensível e se esforça por torná-lo inteligível, valendo-seunicamente de seus recursos.
Desse modo, há uma ilusãoconstitutiva de nossa primeira abordagem do real e o que nos engana é,inicialmente, nós mesmos. As sombras da caverna são essas aparências sobre aparede de nossos sentidos. Deformamos o real porque o apreendemosespontaneamente através de nossas impressões sensíveis, de nossos desejos,nossas paixões, nossos interesses, nossos hábitos. Esta impotência está ligada àpassividade do espírito acostumado desde a infância a receber sem exame muitascrenças falsas como verdadeiras.
Platão estabelece duas relaçõesimportantes. O que o reflexo, a sombra é para o objeto real, o visível é para ointeligível, e a opinião é para a ciência. E sobretudo ele sugere a partilha dointeligível : o que o reflexo é para o objeto sensível, os objetos matemáticossão para as Idéias puras.
Regressar à caverna significa,para o homem, por o que se viu à disposição da comunidade, dar-se conta elepróprio deste mundo, portanto o seu mundo, e obedecer ao vínculo de justiça queo liga à humanidade na sua própria pessoa e na dos outros. Deverá, pois,reabituar-se à obscuridade da caverna; e então verá melhor do que oscompanheiros que ali permaneceram e reconhecerá a natureza e os caracteres decada imagem, por ter visto o seu verdadeiro exemplar: a beleza, a justiça e obem. Só com o regresso à caverna, só comprometendo-se o mundo humano, o homemterá completado a sua educação e será verdadeiramente filósofo.

IMPRTÂNCIA DA COSMOLOGIA PLATÔNICA

O diálogo Timeu divide-se basicamenteem três partes: constituição política, cosmologia e antropogênese.
A parte política, que é exposta naprimeira fase do diálogo define a "constituição mais perfeita e os homens quedevem aplicá-la" A constituição grega não atribui a cada um uma única função deacordo com a sua natureza, mas todos têm de guardar a cidade contra os que lhecausarem mal. Deverão tratar com brandura os que governam, e tratar sem piedadeos inimigos. "Além disso, as mulheres deverão harmonizar suas naturezas com asdos homens e torná-las semelhantes"
A cidade tem como fundadora a deusacujo nome grego é Atena ( deusa da sabedoria, aquela que dá bravura einteligência aos heróis ).
Para os gregos a deusa estabeleceu aconstituição e a ordem gerada pela mesma, bem como a forma das armas.
Depois de harmonizar o Estado, suasleis, atribuições e funções dos homens; e principalmente a instituição políticana vida dos habitantes gregos, o diálogo remete-se a uma segunda etapa, acosmologia.
A geração ou criação do cosmospareceria significar um início no tempo e não uma existência ab aeterno: a menosque se considere a própria criação como processo eterno; e é exatamente isso quePlatão sugere no Timeu, onde afirma que o criador "ao ordenar todas essascoisas, permanecia, de acordo com a sua natureza, no seu próprioestado".
Sua cosmologia vai estar ligada aosquatro problemas metafísicos: se existe ou não Deus, se há alma humana, onde omundo começou e sobre a natureza do mundo.
Ao definir a natureza humana, Platão,classifica-a como possuindo uma alma imortal, uma alma mortal e um corpo humano(mortal). Conceituou a produção das doenças da alma análogas às do corpo. Adoença da alma é a demência, e esta decompõe-se em duas espécies – a loucura e aignorância.
No decorrer do texto aparecerá odemiurgo (deus com causa eficiente = inteligência), este não será um criador,mas um semi-criador.
O demiurgo vai ordenar a matériasensível. Irá fazer uma relação entre o mundo sensível e o inteligível, com afinalidade de estabelecer a harmonia.
O que teremos é uma dialética bipolardo real, onde de um lado o mundo inteligível representará a ordem e de outro omundo sensível será definido como a desordem.
O que Platão faz é apresentar ocontraste entre a ordem e a desordem como sucessão de fases.
A gênese contada pelo mito (demiurgo)será a da inscrição da ordem inteligível no interior de uma desordem originária,do caos, da maneira de ser das coisas "na ausência de Deus".
Como as idéias poderão produzir aordem? No que concerne à conduta humana, é claro que é por intermédio da parteinteligente da alma: o nôus, ou a razão.
Mas como o inteligível imprimirá suamarca no universo físico? A questão é abordada pelo demiurgo, onde Platão mostraque é preciso encarar essa ação de maneira análoga ao modo pelo qual as idéiasagem em nós. Isso exige um princípio mediador entre o sensível e o inteligível –ou, segundo o próprio texto do Timeu, entre "aquilo que se torna sempre e jamaisé" e "aquilo que continua existindo sem ter tido nascimento". Esse mediador,artesão do mundo, Platão chamou-o de demiurgo.
Não podemos esquecer que para Platãotoda idéia é una e múltipla ao mesmo tempo, porque é unidade de notas e deespécies e é pluralidade delas: daí a conclusão de que cada idéia dá lugar a umamultiplicidade infinita de participações, e vem a ter, como seus elementos, ouno e o múltiplo, o limite e o infinito.
As idéias são ao mesmo tempotranscendentes, "reais" e interiores; onde o sensível participa do inteligívelporque, segundo o que expõe o mito do demiurgo, a idéia não assume somente umafunção de inteligibilidade e uma função ontológica, mas também uma funçãocosmológica.
O Timeu constitui um vasto mitocosmogônico, no qual Platão – revelando a crescente influência do matematismopitagórico – descreve a origem do universo.
"...foi a visão do dia e da noite,dos meses, das revoluções dos anos, dos equinócios, dos solstícios que nos fezencontrar o número, que nos deu a noção de tempo e a possibilidade de estudar a natureza do todo"
Esse fragmento acima expõe muito bema importância da matemática dentro do pensamento platônico. Aqui fica explícitoque foi a partir da descoberta do número que pôde-se estudar a natureza, e principalmente ordená-la e harmonizá-la.
"Quando Deus resolveu ordenar o todo,no começo, o fogo, a água, a terra e o ar traziam vestígios da sua próprianatureza, mas estavam no estado em que tudo se encontra naturalmente na ausênciade Deus. Foi neste estado que ele os foi buscar, e começou por dar-lhes umaconfiguração distinta por meio das idéias e dos números. Que os tirou da suadesordem para associá-los da maneira mais bela e melhor possível"
Partindo do pressuposto que o fogo, aterra, a água e o ar são corpos, e estes, sendo gêneros corpóreos que tem sempreprofundidade; e por conseguinte esta é envolvida pela natureza da superfície, esendo de formação retilínea, é composta de triângulos. De acordo com opensamento platônico os corpos são compostos de triângulos, e portanto suasproporções relativas ao seu número, aos seus movimentos e às suas outraspropriedades realizou-se em parte com exatidão. Pois, Deus na medida em que anatureza da necessidade se prestava voluntariamente e cedia à persuasão ordenoutudo numa proporção harmoniosa.
Desse modo, o mundo está harmonizadoem si mesmo por meio da proporção, pois quando Deus começou a ordenar ouniverso, ... o fogo, a terra, o ar e a água ... antes de tudo, dotou-os deformas e de números. Portanto, gerando o universo numa proporçãoharmoniosa.
A partir dos elementos de origem douniverso ( fogo, terra, ar e água) o texto explicita todas as variedades queresultam das figuras, das combinações e das transformações mútuas dos corpos.Através da enunciação dessas divisões e proporções, pelas quais a alma cósmicacompreende originariamente em sitodas as relações de número e de medida, é queela é inteiramente número e harmonia e dá origem a todas as determinações denúmero e a toda harmonia no universo. E assim os arquétipos de toda a realidadecorpórea e espiritual são todos número e proporção.
Em seguida, Platão, tenta mostrar ascausas das impressões que estes elementos produzem em nós. A partir desse pontosurge a antropogênese, pois Platão vai explicar todas as impressões sensíveispara poder tratar da origem da parte mortal da alma.
Decorrente da explicação das impressões sensíveis pode-se conceituar o princípio imortal da alma, o corpo mortal e a alma mortal. Isso fica bem explicado no seguinte fragmento:"...quanto aos animais mortais, encarregou os seus próprios filhos de gerá-los.Estes imitaram-no e, quando receberam dele o princípio imortal da alma,construíram um corpo mortal em volta da alma e deram-lhe como veículo o corpo inteiro: depois, neste mesmo corpo, construíram ainda outra espécie de alma, e alma mortal, que contém paixões temíveis e fatais(...) Então misturando estas paixões com a sensação irracional e o amor que tudo ousa, compuseram segundo alei da necessidade a raça mortal"
Donde conclui-se que pela cosmologia obtemos como decorrência a antropogênese. A partir daí Platão chega a conclusão de que Deus é sensível feito à imagem do inteligível, e de que existem seres vivos mortais e imortais.


AMOR PLATÔNICO

Há,na doutrina platônica sobre a alma, um outro elemento importante: Eros, o amor.Platão ensinava que Eros é uma força que instiga a alma para atingir o bem; elenão cessa de mover a alma enquanto essa não for satisfeita. O bem almejado é determinado pela parte da alma que prevalecer sobre as outras. Se fosse a sensual, por exemplo, a alma não buscaria um bem verdadeiro, pois procuraria a satisfação dos desejos que Platão julgava os mais baixos, como o apetite e aganância. Segundo o filósofo, o melhor é que a alma seja conduzida por suaparte racional e que utilize a energia inesgotável do amor para se dirigir aobem verdadeiro - que compreende a justiça, a honra, a fidelidade; em suma, asvirtudes supremas.
Platão dedicou uma desuas obras exclusivamente ao discurso sobre o amor:O Banquete.(...) Para Platão, que usaSócrates como personagem, o amor é a insuficiência de algo e o desejo deconquistar aquilo de que sentimos falta. O amor dirige-se para o bem, cujaaparência externa é a beleza

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (parte V)

OS SOFISTAS E O PERÍODO SOCRÁTICO - MAIÊUTICA E IRONIA

O período pré-socrático foi dominado, em grande parte,pela investigação da natureza. Essa investigação tinha um sentido cosmológico.Era a busca de explicações racionaispara o universo manifestada na procura de um princípio primordial (arché) paratodas as coisas existentes. Seguiu-se a esse período uma nova fase filosófica,caracterizada pelo interesse no próprio homem e nas relações do homem com asociedade. Essa nova fase foi marcada, no início, pelos sofistas.
Etimologicamente, o termo sofista significa sábio.Entretanto, com o decorrer do tempo, ganhou o sentido de impostor, devido,sobretudo, às críticas de Platão.
Os sofistas eram professores viajantes que, por determinadopreço, vendiam ensinamentos práticos de filosofia. Levando em consideração osinteresses dos alunos, davam aulas de eloqüência e sagacidade mental. Ensinavamconhecimentos úteis para o sucesso dos negócios públicos e privados.
O momento histórico vivido pela civilização grega favoreceuo desenvolvimento desse tipo deatividade praticada pelos sofistas. Era uma época de lutas políticas e intensoconflito de opiniões nas assembléias democráticas. Por isso, os cidadãos maisambiciosos sentiam a necessidade de aprender a arte de argumentar em públicopara, manipulando as assembléias, fazerem prevalecer seus interesses individuaise de classe.
As lições sofísticas tinham como objetivo o desenvolvimentodo poder de argumentação, da habilidade retórica, do conhecimento de doutrinasdivergentes. Eles transmitiam todo um jogo de palavras, raciocínios e concepçõesque seria utilizado na arte de convencer as pessoas, driblando as teses dosadversários.
Segundo essas concepções, não haveria uma verdade única,absoluta. Tudo seria relativo ao homem, ao momento, a um conjunto de fatores ecircunstâncias.
Nascido em Atenas, Sócrates (469-399 a.C.) é tradicionalmente considerado ummarco divisório da história da filosofia grega. Por isso, os filósofos que oantecederam são chamados pré-socráticos e os que o sucederam, de pós-socráticos.O próprio Sócrates não deixou nada escrito, e o que se sabe dele e de seupensamento vem dos textos de seus discípulos e de seus adversários.
O estilo de vida de Sócrates assemelhava-se ao dos sofistas,embora não vendesse seus ensinamentos. Desenvolvia o saber filosófico em praçaspúblicas, conversando com os jovens, sempre dando demonstrações de que erapreciso unir a vida concreta ao pensamento. Unir o saber ao fazer, a consciênciaintelectual à consciência prática ou moral.
O autoconhecimento era um dos pontos fundamentais dafilosofia socrática. “Conhece-te a ti mesmo”, frase inscrita no templo de Apolo,era a recomendação básica feita por Sócrates a seus discípulos.
Sócrates percebe que a sabedoria começa pelo reconhecimentoda própria ignorância. “Só sei que nada sei” é, para Sócrates, o princípio dasabedoria, atitude em que se assume atarefa verdadeiramente filosófica de superar o enganoso saber baseado em idéiaspré-concebidas.
Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogoscríticos com seus interlocutores. Esses diálogos podem ser divididos em doismomentos básicos: a ironia (do grego eironeia, perguntar fingindo ignorar) e amaiêutica (de maieutiké, relativo ao parto).
Na linguagem cotidiana, a ironia tem um significadodepreciativo, sarcástico ou de zombaria. Mas não é esse o sentido de ironiasocrática. No grego, ironia quer dizer interrogação. Sócrates interrogava seusinterlocutores sobre aquilo que pensavam saber. O que é o bem? O que é ajustiça? São exemplos de algumas perguntas feitas por ele.
Com habilidade de raciocínio, procurava evidenciar ascontradições afirmadas, os novos problemas que surgiam a cada resposta. Seuobjetivo inicial era demolir, nos discípulos, o orgulho, a ignorância e apresunção do saber.
A ironia socrática tinha um caráter purificadorna medida em que levava os discípulos a confessarem suas próprias contradições eignorâncias, onde antes só julgavam possuir certezas e clarividências.
Libertos do orgulho e da pretensão de que tudo sabiam, osdiscípulos podiam iniciar o caminho da reconstrução das próprias idéias.
Nesta segunda fase do diálogo, o objetivo deSócrates era ajudar seus discípulos aconceberem suas próprias idéias. Essafase do diálogo socrático, destinada à concepção de idéias, era chamada demaiêutica, termo grego que significa arte de trazer à luz.
A doutrina socrática identifica o sábio e o homem virtuoso.Derivam daí diversas conseqüências para a educação, como: o conhecimento tem porfim tornar possível a vida moral, o processo para adquirir o saber é o diálogo,nenhum conhecimento pode ser dogmaticamente, mas como condição para desenvolver a capacidade de pensar, todaa educação é essencialmente ativa, e por ser auto-educação leva ao conhecimentode si mesmo, a análise radical do conteúdo das discussões, retirado docotidiano, leva ao questionamento do modo de vida de cada um e, em últimainstância, da própria cidade.
Interessado somente na prática da virtude e na busca daverdade, contrariava os valores dogmáticos da sociedade ateniense. Por isso,recebeu a acusação de ser injusto com os deuses da cidade e de corromper ajuventude. No final do processo foi condenado a beber cicuta (veneno).
A história de sua acusação, defesa e execução é contada nosbelos diálogos de Platão, Apologia de Sócrates e Fédon.
Diferenças ente Sócrates e os sofistas:
-o sofista é um professor ambulante.Sócrates é alguém ligado aos destinos de sua cidade.
-O sofista cobra para ensinar. Sócratesvive sua vida e essa confunde-se com a vida filosófica: “ Filosofar não éprofissão, é atividade do homem livre”
-O sofista “sabe tudo”, e transmite umsaber pronto, sem crítica ( que Platão identifica com uma mercadoria, que osofista exibe e vende). Sócrates diz nada saber e, colocando-se no nível de seuinterlocutor, dirige uma aventura dialética em busca da verdade, que está nointerior de cada um
-O sofista faz retórica. Sócrates fazdialética. Na retórica o ouvinte é levado por uma enxurrada de palavras que, seadequadamente compostas, persuadem sem transmitir conhecimento algum. Nadialética, que opera por perguntas e respostas, a pesquisa procede passo apasso, e não é possível ir adiante sem deixar esclarecido o que ficou paratrás.
O sofista refuta por refutar, para ganhar a disputa verbal. Sócrates refuta parapurificar a alma de sua ignorância
Referência bibliográfica:
ARANHA, MariaLúcia de Arruda. MARTINS, Maria Helena Pires.Temas de Filosofia. SãoPaulo: Ed. Moderna, 1992.
CHAUÍ,Marilena. Convite à Filosofia. SãoPaulo: Ed. Ática, 1995.
COTRIM, Gilberto.Fundamentos da Filosofia – Ser, Saber eFazer.São Paulo: Ed.Saraiva, 1997.

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte IV)

OS PRÉ-SOCRÁTICOS

Aqui você encontrará os seguintes pensadores pré-socráticos:Tales de Mileto , Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Xenófanes de Cólofon, Heráclito de Éfeso, Pitágoras de Samos, Parmênides de Eléia, Empédocles de Agrigento , Anaxágoras de Clazomena e Demócrito de Abdera.

A passagem da consciência mítica e religiosa para a consciência racional e filosófica não foi feita de um salto. Esses dois tipos de consciência coexistiram na sociedade grega.
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia grega é conhecida como período pré-socrático. Esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto (623-546 a.C.) até Sócrates (468-399 a.C.).
Os primeiros filósofos buscam a arkhé, o princípio absoluto (primeiro e último) de tudo o que existe. A arkhé é o que vem e está antes de tudo, no começo e no fim de tudo, o fundamento, o fundo imortal e imutável, incorruptível de todas as coisas, que as faz surgir e as governa. É a origem, mas não como algo que ficou no passado e sim como aquilo que, aqui e agora, dá origem a tudo, perene e permanentemente.
No vasto mundo Grego, a filosofia teve como berço a cidade de Mileto, situada na Jônia, litoral ocidental da Ásia Menor. Caracterizada por múltiplas influências culturais e por um rico comércio, a cidade de Mileto abrigou os três primeiros pensadores da história ocidental a quem atribuímos a denominação de filósofos. São eles: Tales, Anaximandro e Anaxímenes.
O objetivo dos primeiro filósofos era construir uma cosmologia (explicação racional e sistemática das características do universo) que substituísse a antiga cosmogonia (explicação sobre a origem do universo baseada nos mitos).
Em outras palavras, os primeiros filósofos queriam descobrir, com base na razão e não na mitologia, o princípio substancial (a arché) existente em todos os seres materiais.
Os pré-socráticos ocuparam-se em explicar o universo e examinavam a procedência e o retorno das coisas. Os primeiros filósofos gregos tentaram responder à pergunta: Como é possível que todas as coisas mudem e desapareçam e a Natureza, apesar disto, continua sempre a mesma?
Para tanto, procuraram um princípio a partir do qual se pudesse extrair explicações para os fenômenos da natureza. Um princípio único e fundamental que permanecesse estável junto ao sucessivo vir-a-ser. Tales vai dizer que o princípio de tudo é a água; Anaximandro, o infinito indeterminado, Anaxímenes, o ar; Heráclito, o fogo; Pitágoras, o número; Empédocles, os quatro elementos: terra, água, ar, fogo, em vez de uma substância única.
Vejamos as reflexões filosóficas de alguns pensadores pré-socráticos:

Tales de Mileto (625-558 a.C.)
Tales foi comerciante de sal e de azeite de oliva, e enriqueceu como proprietário de prensas de azeitona durante uma safra promissora. Sabe-se que Tales previu um eclipse ocorrido em 585 a.C.
De suas idéias quase nada é conhecido. Aristóteles o chama de fundador da filosofia, e lembra que a sua doutrina baseia-se na água como o elemento primordial de todas as coisas (physis, fonte originária, gênese), e que para suportar as transformações e permanecer inalterada, a água deveria ser um elemento eterno.
Atribui-se a Tales a afirmação de que "todas as coisas estão cheias de deuses", o que talvez pode ser associado à idéia de que o imã tem vida, porque move o ferro. Essa afirmação representa não um retorno a concepções míticas, mas simplesmente a idéia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva (hilozoísmo). Além disso, elaborou uma teoria para explicar as inundações do Nilo, e atribui-se a Tales a solução de diversos problemas geométricos (exemplo: teorema de Pitágoras).
Tales foi um dos filósofos que acreditava que as coisas têm por trás de si um princípio físico, material, chamado arqué. Para Tales, o arqué seria a água. Tales observou que o calor necessita de água, que o morto resseca, que a natureza é úmida, que os germens são úmidos, que os alimentos contêm seiva, e concluiu que o princípio de tudo era a água. Com essa afirmação deduz-se que a existência singular não possui autonomia alguma, apenas algo acidental, uma modificação. A existência singular é passageira, modifica-se. A água é um momento no todo em geral, um elemento. Tales com essa afirmação queria descobrir um elemento físico que fosse constante em todas as coisas. Algo que fosse o princípio unificador de todos os seres.
Principais fragmentos: “... a água é o princípio de todas as coisas...”.
“... todas as coisas estão cheias de deuses...”.
“... a pedra magnética possui uma alma porque move o ferro..."

Anaximandro de Mileto (610-546 a.C.)
Discípulo e sucessor de Tales. Anaximandro recusa-se a ver a origem do real em um elemento particular; todas as coisas são limitadas, e o limitado não pode ser, sem injustiça, a origem das coisas. Do ilimitado surgem inúmeros mundos, e estabelece-se a multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada através da separação dos contrários em conseqüência do movimento eterno. Para Anaximandro o princípio das coisas - o arqué - não era algo visível; era uma substância etérea, infinita. Chamou a essa substância de apeíron (indeterminado, infinito). O apeíron seria uma “massa geradora” dos seres, contendo em si todos os elementos contrários.
Anaximandro tinha um argumento contra Tales: o ar é frio, a água é úmida, e o fogo é quente, e essas coisas são antagônicas entre si, portanto um o elemento primordial não poderia ser um dos elementos visíveis, teria que ser um elemento neutro, que está presente em tudo, mas está invisível.
Esse filósofo foi o iniciador da astronomia grega. Foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico totalmente.
De acordo com ele para que o vir-a-ser não cesse, o ser originário tem de ser indeterminado. Estando, assim, acima do vir-a-ser e garantindo, por isso, a eternidade e o curso do vir-a-ser.
O seu fragmento refere-se a uma unidade primordial, da qual nascem todas as coisas e à qual retornam todas as coisas. Anaximandro recusa-se a ver a origem do real em um elemento particular. Do ilimitado surgem inúmeros mundos, e estabelece-se a multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada através da separação dos contrários em conseqüência do movimento eterno.
Principais fragmentos: “... o ilimitado é eterno...”
“... o ilimitado é imortal e indissolúvel...”

Anaxímenes de Mileto (588-525 a.C.)
O princípio de tudo, o arqué, seria o ar e as coisas da natureza seriam o ar condensado em vários graus. A rarefação e condensação do ar forma o mundo. A alma é ar, o fogo é ar rarefeito; quando acontece uma condensação, o ar se transforma em água, se condensa ainda mais e se transforma em terra, e por fim em pedra. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe a sua luz do Sol.
Para esse filósofo o ar representa um elemento invisível e imponderável, quase inobservável e, no entanto, observável: o ar é a própria vida, a força vital, a divindade que “anima” o mundo.
Principais fragmentos: “... do ar dizia que nascem todas as coisas existentes, as que foram e as que serão, os deuses e as coisas divinas...”
Xenófanes de Cólofon (570-528 a.C.)
O elemento primordial para ele é a terra, através do elemento terra desenvolve sua cosmologia. Combate acirradamente a concepção antropomórfica dos deuses, e defende um Deus único, eterno, imóvel.
Fragmentos principais: “... tudo sai da terra e tudo volta à terra...”
“... tudo o que nasce e cresce é terra e água..."
Heráclito de Éfeso (540-476 a.C.)
Cognominado de "obscuro". Afirmava que todas as coisas estão em movimento como um fluxo perpétuo. O escoamento contínuo dos seres em mudança perpétua, e que esse se processa através de contrários. A lei fundamental do Universo é o devir, que significa contínuas transformações. Tudo flui e nada fica como é. Coisa alguma é estável. Tudo segue seu curso. Para Heráclito o princípio das coisas é o fogo. O fogo transforma-se em água, sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade transforma-se em terra. Sucessivamente, a terra transforma-se em água e a água, em fogo. Todas as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do que será depois. Afirmou: "Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou."
Grande representante do pensamento dialético. Concebia a realidade do mundo como algo dinâmico, em permanente transformação. Daí sua escola filosófica ser chamada de mobilista (=movimento). Para ele, a vida era um fluxo constante, impulsionado pela luta de forças contrárias. Assim, afirmava que “a luta é a mãe, rainha e princípio de todas as coisas”. É pela luta das forças opostas que o mundo se modifica e evolui.
Heráclito imaginava a realidade dinâmica do mundo sob a forma de fogo, com chamas vivas e eternas, governando o constante movimento dos seres.
Ele estabelece a existência de uma lei universal e fixa (o logos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamentalmente da harmonia universal, harmonia feita de tensões.
“Tudo flui”. Nada neste nosso mundo é permanente. Tudo está mudando o tempo todo. A mudança é a lei da vida e do universo.
Ele concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. O ser é o um, o segundo é o devir. O absoluto se dá a unidade dos opostos. Para ele a essência é a mudança.
Principais fragmentos: “... Todas as coisas estão em movimento...”
“... O movimento se processa através de contrários.."
“... Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia...”
“... descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos...”
Pitágoras de Samos
É dele a idéia de que o número é o princípio ordenador de todas as coisas, os quais representam a ordem e a harmonia. Assim, a essência dos seres, teria uma estrutura matemática. Para Pitágoras, aquele que compreende todas as relações numéricas chega à essência das coisas. Portanto, a substância das coisas é o número. Pitágoras interpretou a forma dualista da teoria dos opostos e a descoberta de ordem matemática, sobretudo do famoso teorema que lhe é atribuído.
Principais Fragmentos: “... o princípio das matemáticas é o princípio de todas as coisas.."


Parmênides de Eléia (530-460 a.C.)
É a doutrina mais profunda de todo o pensamento socrático, mas também a mais difícil interpretação. O poema divide-se: o prólogo, o caminho da verdade e o caminho da opinião. Parmênides afirma que a única coisa eterna é o ser; as mudanças são ilusórias. Não haveria, por conseguinte, mudanças nas coisas. Para conhecer o conteúdo verdadeiro e objetivo das coisas é necessário pensar. Conhecer o ser é conhecer a verdade. Parmênides combateu Heráclito que diz que tudo flui. Para Parmênides é absurdo e impensável considerar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. Parmênides considera que o movimento existe apenas no mundo sensível, e no mundo inteligível o ser é imóvel.
Defendia a existência de dois caminhos para a compreensão da realidade. O primeiro é o da filosofia, da razão, da essência. O segundo é o da crendice, da opinião pessoal, da aparência enganosa, que ele considerava a “via de Heráclito”.
É o primeiro filósofo a formular os princípios lógicos de identidade e de não-contradição, desenvolvidos depois por Aristóteles.
Ao refletir sobre o ser, pela via da essência, o filósofo eleático conclui que o ser é eterno, único, imóvel e ilimitado. Essa é a via da verdade pura, a via a ser buscada pela ciência e pela filosofia.
Ele afirma que o imóvel, o limitado e o esferóide é Deus.
Para ele tudo não apenas deve ser sem-princípio e não-criado como também deve ser preenchido, um plenum. Isso gera uma visão do universo como uma única entidade realmente imutável. Tudo é um.
Principais fragmentos: “... pois pensar e ser é o mesmo...”
“... o ser é, e o nada, ao contrário, nada é...”
“... resta-nos assim um único caminho: o ser é...”
Empédocles de Agrigento (490-435 a.C.)
O princípio gerador de todas as coisas não seria um único elemento, mas quatro elementos: terra, ar, água e fogo, que se misturam em diferentes proporções e formam as várias substâncias que encontramos no mundo. O que unia e desunia os quatro elementos eram dois princípios: o amor e a luta. Os quatro elementos e os dois princípios seriam eternos, mas as substâncias formadas por eles seriam pouco duradouras.
Principais fragmentos: “... duas coisas quero dizer; às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade..”
Anaxágoras de Clazomena (500-428 a.C.)
Haveria um número infinito de elementos que Anaxágoras chamou de homeomerias, ou sementes invisíveis, que diferiam entre si nas qualidades. Todas as coisas resultariam da combinação das diferentes homeomerias.
Fragmentos Principais: “ ... Todas as coisas estavam juntas, ilimitadas em número e pequenez, pois o pequeno era ilimitado...”
Demócrito de Abdera (460-370 a.C.)
Acha que tudo o que existe é composto de átomos, partículas invisíveis e indivisíveis. Os átomos, infinitos em número, combinam-se uns aos outros e formam todas as coisas. Os átomos são invisíveis porque são muito pequenos e também porque não possuem qualidades. No universo somente existiriam átomos e vácuo (que representaria a ausência do ser). Todas as qualidades das coisas como cor, cheiro, peso, som, beleza, vida e outras, nada mais são do que movimento e modos de ser diferentes dos agregados de átomos que formam a respectiva coisa. Para ele é o acaso ou a necessidade que promove a aglomeração de certos átomos e a repulsão de outros. O acaso é o encadeamento imprevisível de causas. A necessidade é o encadeamento previsível e determinado entre causas. Sua concepção mecanicista – “tudo o que existe no universo nasce do acaso ou da necessidade” Tudo tem uma causa.
Fragmentos Principais: “...os homens fizeram do acaso uma imagem
como pretexto para a sua própria imprudência...”

Outros: Zenão de Eléia,Melisso de Samos, Filolau de Cróton, Arquitas de Tarento, Diógenes de Apolônia e Leucipo de Abdera.
Bibliografia:
CONVITE À FILOSOFIA, Marilena Chauí, Editora Ática, 8a edição, 1997
FILOSOFANDO - Introdução à Filosofia, Maria Lúcia de Arruda Aranha , Maria Helena Pires Martins, Editora Moderna, 2a edição, 1994
BORNHEIM, G. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1999.

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte III)

O QUE É FILOSOFIA?
O que vem a ser filosofia?? Recebi vários e-mails com essa pergunta...esse site é para vocês meus amigos (as) internautas, e, é claro, para todos os interessados...
Pare e pense...O que te vem à mente quando escrevo essa palavra?
Mas, será que isso que pensou está correto?
Vamos descobrir?
Bom, a filosofia surgiu há muitos séculos atrás...
Na história do pensamento ocidental, a filosofia nasce na Grécia por volta do século VI (ou VII) a.C. Por meio de longo processo histórico, surge promovendo a passagem do saber mítico ao pensamento racional, sem, entretanto, romper bruscamente como todos os conhecimentos do passado. Durante muito tempo, os primeiros filósofos gregos compartilhavam de diversas crenças míticas, enquanto desenvolviam o conhecimento racional que caracterizaria a filosofia.
Se considerarmos filosofia a atividade racional voltada à discussão e à explicação intelectualizada das coisas que nos circundam, tem-se o século VI como a data mais provável da origem da filosofia. Nessa época temos a instituição da moeda, do calendário e da escrita alfabética, a florescente navegação, que favoreceu o intenso contato com outras culturas, esses acontecimentos propiciaram o processo de desdobramento do pensamento poético em filosófico.
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia grega é conhecida como período pré-socrático. Esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto (623-546 a.C.) até Sócrates (468-399 a.C.).
Já datamos o início da filosofia, mas o que é filosofia?
A filosofia é um modo de pensar, é uma postura diante do mundo. A filosofia não é um conjunto de conhecimentos prontos, um sistema acabado, fechado em si mesmo. Ela é, antes de mais nada, uma prática de vida que procura pensar os acontecimentos além de sua pura aparência. Assim ,ela pode se voltar para qualquer objeto. Pode pensar a ciência, seus valores, seus métodos, seus mitos; pode pensar a religião; pode pensar a arte; pode pensar o próprio homem em sua vida cotidiana. Até mesmo uma história em quadrinhos ou uma canção popular podem ser objeto da reflexão filosófica.
A filosofia parte do que existe, critica, coloca em dúvida, faz perguntas importunas, abre a porta das possibilidades, faz-nos entrever outros mundos e outros modos de compreender a vida.
A filosofia incomoda porque questiona o modo de ser das pessoas, das culturas, do mundo. Questiona as práticas política, científica, técnica, ética, econômica, cultural e artística. Não há área onde ela não se meta, não indague. E, nesse sentido, a filosofia é "perigosa", "subversiva", pois vira a ordem estabelecida de cabeça para baixo.
Talvez a divulgação da imagem do filósofo como sendo uma pessoa "desligada" do mundo seja exatamente a defesa da sociedade contra o "perigo" que ela representa.
O trabalho do filósofo é refletir sobre a realidade, qualquer que seja ela, re-descobrindo seus significados mais profundos.
Filósofos diferentes têm posturas diversas com relação a imagem institucional de sabedoria e compreensão.Embora com motivações diferentes, deram a sua importante contribuição para o alargamento das fronteiras.
A filosofia quer encontrar o significado mais profundo dos fenômenos. Não basta saber como funcionam, mas o que significam na ordem geral do mundo humano. A filosofia emite juízos de valor ao julgar cada fato, cada ação em relação ao todo. Assim, filosofar é uma prática que parte da teoria e resulta em outras teorias.
Desse modo, embora os sistemas filosóficos possam chegar a conclusões diversas, dependendo das premissas de partida e da situação histórica dos próprios pensadores, o processo do filosofar será sempre marcado pela reflexão rigorosa, radical e de conjunto.
O conceito de filosofia foi muito bem definido por Gerd A. Bornheim no livro "Os filósofos Pré-socráticos": "...Se compreendermos a Filosofia em um sentido amplo - como concepção da vida e do mundo - , poderemos dizer que sempre houve filosofia. De fato, ela responde a uma exigência da própria natureza humana; o homem, imerso no mistério do real, vive a necessidade de encontrar uma razão de ser para o mundo que o cerca e para os enigmas de sua existência..."
Será que a explicação correspondeu aos seus pensamentos ?
Espero que tenha esclarecido, ou pelo menos, expandido suas idéias...

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte II)

O QUE É MITO?

O pensamento mítico teve início na Grécia, do séc. XXI ao VI a.c.. Nasceu do desejo de dominação do mundo, para afugentar o medo e a insegurança. A verdade do mito não obedece a lógica nem da verdade empírica, nem da verdade científica. É verdade intuída, que não necessita de provas para ser aceita. É portanto uma intuição compreensiva da realidade, é uma forma espontânea do homem situar-se no mundo.
Normalmente, associa-se, erroneamente, o conceito de mito a: mentira, ilusão, ídolo e lenda. O mito não é uma mentira, pois é verdadeiro para quem vive. A narração de determinada história mítica é uma primeira atribuição de sentido ao mundo, sobre o qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel.
Como exemplo temos o mito de Pandora, que, enviada aos homens, abre por curiosidade a caixa onde saem todos os males. Pandora consegue fechá-la a tempo de reter a esperança, única forma do homem não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida. Assim, essa narração mítica explica a origem do males, sendo esta a única maneira de compreender tal realidade.
Não podemos afirmar também que o mito é uma ilusão, pois sua história tem uma racionalidade, mesmo que não tenha uma lógica, por trabalhar com a fantasia. Devemos diferenciar mito e ídolo, pois mesmo existindo uma relação entre eles, o mito é muito "maior" que o ídolo ( objeto de paixão, veneração).
Como exemplo temos a história do Super-Homem. Ele representa um ídolo, pois é venerado. Porém, sua história é mítica, devido ao fato de representar todos os momentos de fracassos do ser humano na pele de Clark Kent, e por outro lado, como Super-Homem assume a capacidade de ter sucesso pleno em todas as áreas. Assim, o Super-Homem é um ídolo, porém sua história é mítica, sendo a única forma de representar a incapacidade do pleno sucesso humano, sem frustrações; pois o único que conseguiria tal feito seria um super herói, e já que esse não existe, os seres humanos ficam mais conformados com suas limitações. E "criam" o mito do Super- Homem para poderem "falsamente" confortar-se com sua realidade.
O mito é muito confundido com o conceito de lenda, porém esta não tem compromisso nenhum com a realidade, são meras histórias sobrenaturais, como é o caso da mula sem cabeça e do saci pererê. O mito não é exclusividade de povos primitivos, nem de civilizações nascentes, mas existe em todos os tempos e culturas como componente indissociável da maneira humana de compreender a realidade.
O mito hoje
Mas, e quanto aos nossos dias, os mitos são diferentes?
O homem moderno, tanto quanto o antigo, não é só razão, mas também afetividade e emoção. Hoje em dia, os meios de comunicação de massa trabalham em cima dos desejos e anseios que existem na nossa natureza inconsciente e primitiva. O mito recuperado do cotidiano do homem contemporâneo, não se apresenta com a abrangência que se fazia sentir no homem primitivo. Os mitos modernos não abrangem mais a totalidade do real como ocorria nos mitos gregos, romanos ou indígenas. Podemos escolher um mito da sensualidade, outro da maternidade, sem que tenham de ser coerentes entre si. Os super-heróis dos desenhos animados e dos quadrinhos, bem como os personagens de filmes ( Rambo e outros), passam a encarnar o Bem e a Justiça, assumindo a nossa proteção imaginária.
A própria ciência pode virar um mito, quando somos levados a acreditar que ela é feita à margem da sociedade e de seus interesses, que mantém total objetividade e que é neutra. A nossa forma de compreensão do mundo dessacraliza o pensamento e a ação ( isto é, retira dele o caráter de sobrenaturalidade), fazendo surgir a filosofia, a ciência e a religião.
Como mito e razão habitam o mesmo mundo, o pensamento reflexivo pode rejeitar alguns mitos, principalmente os que vinculam valores destrutivos ou que levam à desumanização da sociedade. Cabe a cada um de nós escolher quais serão nossos modelos de vida.
A ruptura com a mitologia - cosmologia
A filosofia retomando as questões postas pelo mito, é uma explicação racional da origem e da ordem do mundo. A filosofia nasce como racionalização e laicização (influências religiosas) da narrativa mítica, superando-a e deixando-a como passado poético e imaginário. A origem e a ordem do mundo são, doravante, naturais. Aquilo que, no mito, eram seres divinos (Urano, Gaia, Ponto) tornam-se realidades concretas e naturais: céu, terra, mar. Aquilo que no mito, aparecia como geração divina do tempo primordial surge, na filosofia, como geração natural dos elementos naturais. No início da filosofia, tais elementos ainda são forças divinas. Não são antropomórficas, mas são divinas, isto é, superiores à natureza gerada por eles e superiores aos homens que os conhecem pela razão; divinas porque eternas ou imortais, porque dotadas do poder absoluto de criação e porque reguladoras de toda a Natureza.
Podemos, dentro de tal contexto, distinguir, teogonia, cosmogonia e cosmologia.
A teogonia narra, por meio das relações sexuais entre os deuses, o nascimento de todos os deuses, titãs, heróis, homens e coisas do mundo natural.
A cosmogonia narra a geração da ordem do mundo pela ação e pelas relações sexuais entre forças vitais que são entidades concretas e divinas. Ambas, teogonia e cosmogonia, são genealogias, são gênesis, nascimento, descendência, reunião de todos os seres criados, ligados por laços de parentescos.
A cosmologia – forma inicial da filosofia nascente - é a explicação da ordem do mundo, do universo, pela determinação de um princípio originário e racional que é a origem e causa das coisas e de sua ordenação.
A filosofia, ao nascer como cosmologia, procura ser a palavra racional, a explicação racional, a fundamentação pelo discurso e pelo pensamento da origem e ordem do mundo, isto é, do todo da realidade, do ser.
Os primeiros filósofos não pretenderam explicar apenas a origem das coisas e da ordem do mundo, mas também e sobretudo as causas das mudanças e repetições, das diferenças e semelhanças entre as coisas, seu surgimento, suas modificações e transformações e seu desaparecimento ou corrupção e morte.
De modo sumário, podemos apresentar os traços principais da atitude filosófica nascente:
1) tendência a racionalidade: a razão é tomada como critério de verdade, acima das limitações da experiência imediata e da fantasia mítica
2) busca de respostas concludentes: colocado um problema, sua solução é sempre subentendida à discussão e à análise crítica, o discurso deve comprovar , demonstrar e garantir o que é dito
3) ausência de explicações preestabelecidas e, portanto, exigência de investigação para responder os problemas
4) tendência à generalização, isto é, oferecer explicações de alcance geral percebendo, sob a variação e multiplicidade as coisas e fatos singulares.


Referências bibliográficas:
MEUNIER, Mário. Nova Mitologia Clássica. -: Ibrasa,1976.
KURY, Mário da G. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.