quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte VI)

PLATÃO

BIOGRAFIA

Nascido em Atenas, Platão (427-347a.C.) pertencia a uma das maisnobres famílias atenienses. Seu nome verdadeiro era Arístocles, mas, devido asua constituição física, recebeu o apelido de Platão, termo grego que significa“de ombros largos”.
Platão foi discípulo deSócrates, a quem considerava “o mais sábio e o mais justo dos homens”. Depois damorte de seu mestre, empreendeu inúmeras viagens, num período em que ampliouseus horizontes culturais e amadureceu suas reflexõesfilosóficas.
Por volta de 387 a. C. retornou a Atenas, onde fundou sua própria escolafilosófica, a Academia,assim chamada por estar no jardim do herói gregoAcademos. Lá ensinava matemática, ginástica e filosofia. Ele valorizava muito amatemática, por ela nos dar a capacidade de raciocínio abstrato. Essa escola foiuma das primeiras instituições permanentes de ensino superior do mundoocidental.
A maior parte do pensamento platôniconos foi transmitida por intermédio da fala de Sócrates, nos diálogos socráticos,escritos por Platão.
Seriam 30 diálogos, dentre os quais osmais conhecidos; Apologia de Sócrates (onde torna público o discurso queSócrates fez em seu julgamento); Híppias Maior (diálogo sobre - o que é obelo?); Eutifron (diálogo sobre - o que é a piedade?); Menon (diálogo sobre - oque é a virtude?),Teeto (diálogo sobre - o que é a ciência?); Fédon (sobre aimortalidade da alma, faz um relato dos últimos dias de Sócrates), Crátilo (explica a relação entre as coisas e os nomes que lhes são dados.), O banquete(diálogo sobre o amor ao belo), Górgias (diálogo sobre a violência, faz adiferença entre a filosofia e a sofística),e o mais importante, A República ( umtratado completo, onde expõe um sistema de governo e modo de vidaideais).
Através dos diálogos, Platão vaicaracterizando as causas inteligíveis dos objetos físicos que ele chama deidéias ou formas. Elas seriam incorpóreas e invisíveis. Seriam reais, eternas esempre idênticas a si mesmas, escapando á corrosão do tempo, que tornaperecíveis os objetos físicos. Perfeitas e imutáveis, as idéias constituiriam osmodelos ou paradigmas dos quais as coisas materiais seriam apenas cópiasimperfeitas e transitórias. Seriam, pois, tipos ideais a transcender o planomutável dos objetos físicos.
Um dos aspectos maisimportantes da filosofia de Platão é sua teoria das idéias, com a qual procuraexplicar como se desenvolve o conhecimento humano. Segundo ele, o processo deconhecimento humano se desenvolve por meio da passagem progressiva do mundo dassombras e aparências para o mundo das idéias e essências.
Se quiséssemos resumir afilosofia de Platão em uma palavra, poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. Ao admitir a existência dedois mundos: o mundo das idéias imutáveis, eternas, e o mundo das aparênciassensíveis, mutáveis; Platão concebe ao mundo sensível uma certa realidade, masele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia, ou, maisexatamente, uma sombra.
A teoria das idéias de Platãorepresenta a tentativa de conciliar as duas correntes anteriores: aconcepção do ser eterno e imutável deParmênides e a concepção do ser plural e móvel de Heráclito. Para Platão, o sereterno e universal habita o mundo da luzracional, da essência e da realidade pura. E os seres individuais e mutáveismoram no mundo das sombras e sensações, das aparências eilusões.

O VALOR DOS VALORES EM PLATÃO

Tomando por base a obraplatônica - República – Platão revelou o que está em jogo no conhecimento naalegoria da caverna, onde ele mostra a idéia de que conhecer consiste em seliberar das correntes que nos condenam à ignorância e onde ele desvenda que, emúltima análise, o problema do conhecimento se confunde com o da educação. Ohomem deve caminhar desde a opinião até à ciência educando-se gradualmente. Nomundo sensível, os homens são como escravos agrilhoados numa caverna e obrigadosa ver no fundo dela as sombras por um fogo que arde fora. Tomam estas sombraspela realidade, porque não conhecem a realidade verdadeira. De fato, trata-se deoperar a passagem do mundo sensível ao mundo inteligível, e esse movimento é umdoloroso e difícil movimento de alforria. Exige etapas pelas quais a alma seesforça progressivamente por se elevar em direção às idéias, e compreendemos queessa ascensão é, antes de mais nada, uma conversão da sombra à luz, o que nofundo é uma maneira de reentrar em si mesmo para olhar com os olhos da almaaquilo que de início estávamos condenados a deformar, porque o captávamos com osolhos do corpo. A alma cravada às sujeições do corpo, as exigências da razãosufocadas pela onipotência dos desejos e dos interesses, eis os recursos daignorância e a vitória do mal, eis a caverna e sua sedução, eis também a idéiade que a salvação está na fuga. É para essa fuga do sensível que a ciência nosconvoca, é esse caminho de ascensão e de ascese que a educação platônicapropõe.
Desse modo, há uma ilusãoconstitutiva de nossa primeira abordagem do real e o que nos engana é,inicialmente, nós mesmos. As sombras da caverna são essas aparências sobre aparede de nossos sentidos. Deformamos o real porque o apreendemosespontaneamente através de nossas impressões sensíveis, de nossos desejos,nossas paixões, nossos interesses, nossos hábitos, em suma, através de tudoaquilo que nos confina nesse reino de ilusões em que, impotentes para ver osobjetos cujas sombras não passam de sombras, ignoramos que elas são sombras e astomamos por realidade. Esta impotência está ligada à passividade do espíritoacostumado desde a infância a receber sem exame muitas crenças falsas comoverdadeiras.
A educação consistirá, desse modo, emvolver o homem da consideração do mundo sensível à consideração do mundo do ser;e em conduzi-lo gradualmente a avistar o ponto mais alto do ser, que é o bem. Obem corresponde no mundo do ser ao que o sol é no mundo sensível. Como o sol nãosó torna visível as coisas com a sua luz mas as faz nascer, crescer ealimentar-se, assim o bem não só torna cognoscíveis as substâncias queconstituem o mundo inteligível, mas lhes dá ainda o ser de que são dotadas. Poresta sua preeminência o bem não é uma idéia entre as outras, mas a causa dasidéias.
Segundo Platão faz parte da educaçãodo filósofo o regresso à caverna, que consiste na reconsideração e nareavaliação do mundo humano à luz do que se viu fora deste mundo. Regressar àcaverna significa, para o homem, por o que se viu à disposição da comunidade,dar-se conta ele próprio deste mundo, portanto o seu mundo, e obedecer aovínculo de justiça que o liga à humanidade na sua própria pessoa e na dosoutros. Deverá, pois, reabituar-se à obscuridade da caverna; e então verá melhordo que os companheiros que ali permaneceram e reconhecerá a natureza e oscaracteres de cada imagem, por ter visto o seu verdadeiro exemplar: a beleza, ajustiça e o bem. Assim poderá o estado ser constituído e governado por gentedesperta e não por quem sonha e combate entre si por sombras, e disputa o podercomo se este fosse um grande bem.
Platão dá a entender que o poderideal do filósofo-rei permanece como uma hipótese-limite, portanto imperfeita,na cidade real. O homem não é Deus, pode tornar-se semelhante a ele e imitá-lopor via legislativa nas boas ou más imitações.
Daí nascem os diferentes regimespolíticos, monarquia, aristocracia, democracia, dos quais o primeiro éevidentemente o melhor, se for regulamentado pela lei, a democracia sendo opior, já que é impossível a multidão deter a ciência política; mas, se essesestados imperfeitos não estiverem submetidos à lei, então a monarquia é o piorregime e a democracia, o mais suportável.
A aristocracia, da palavra gregaareté, que significa virtude, é o governo dos melhores e dos mais capazes. Atimocracia, de thymos, que quer dizer valor, é o governo no qual os militaresassumem a preponderância; a oligarquia, de olígos, que significa poucos, é ogoverno dos ricos; a democracia, de demos, povo, o governo do maior número, damultidão, e a tirania, de tyrannis, o governo despótico, de um só. Platão não selimita a descrever cada uma dessas formas de governos e o tipo de alma oucaráter humano que lhe é correspondente, mas procura mostrar como esses governosse corrompem, transformando-se uns nos outros.
Na visão platônica a sociedadeperfeita seria aquela em que cada classe e cada unidade estivesse fazendo otrabalho ao qual sua natureza e sua aptidão melhor se adaptassem; aquela em quenenhuma classe ou indivíduo iria interferir nos outros, mas todos iriam cooperarna diferença para produzir um todo harmonioso. Este seria um Estadojusto.
O fim do Estado é tornar o indivíduofeliz, facilitando-lhe a prática das virtudes. Sua constituição é vazada nosmoldes da natureza humana. Correspondentes às três partes da alma distinguem-seno Estado três classes sociais: a) os filósofos, únicos capazes de desempenharcargos públicos; b) os guerreiros, incumbidos da defesa social; c) os operários,encarregados da sua subsistência material.
A cidade platônica não é utópicaporque preconiza a comunidade dos bens, das mulheres e das crianças, e aigualdade dos sexos, nem porque propõe a reforma moral e intelectual do cidadãoe a mudança da estrutura econômica e social da pólis. É utópica porque suarealização é aleatória, dependendo de um caso, o aparecimento e o êxito de umapersonalidade excepcional.
Desse modo, o governante do Estadoideal é um novo Demiurgo que, olhando o mundo divino e eterno das idéias,organiza, consoante a unidade e a harmonia deste, a sociedade humana, fazendoque ela considere como puramente instrumentais os bens empíricos e como fimsupremo a contemplação do Bem em si. O Estado visa pois realizar fins que otranscendem: comanda em nome de valores super-históricos e supersociais, aosquais o incita Eros filósofo.

O REGRESSO PLATÔNICO

Numa visão platônica há umarealidade diversa da mental e da sensível, isto é, o mundo das essências ideais,universais, incorpóreas, imutáveis, eternas, que ele chama Idéias. Assim, há oMundo das Idéias, transcendente, fora do espaço e do tempo, além do mundo e alémdos limites do pensamento. O Ser é a Idéia: esta a grande teseontológico-metafísica de Platão e do platonismo autentico. O que não é Idéia épela Idéia; o que não é Idéia é apenas por e enquanto participa da própriaIdéia.
O primeiro grau do conhecimento éa conjuntura ou conhecimento das imagens ( eikasía ); o segundo, o conhecimentoperceptivo ou crença ( pístis ). São os dois graus do conhecimento sensorial ouopinião ( dóxa ) que tem por objeto o mundo do devir; graus inferiores doconhecer, que ainda não são ciência, que é do universal e não do particular.Começa então a entrever-se obscuramente a verdade e isso incita a alma aultrapassar o sensível.
No livro VII da República, além dereconhecer que a sensação quando se limita ao simples sentir é conhecimentodigno de confiança, a sensação coloca a mente diante das contradições. A almaadverte uma aporia e é obrigada a abrir um "inquérito", isto é, a exercitarsobre as contradições o pensamento ( nóesis ). Na sensação são imanentes oselementos que incitam o pensamento a ultrapassá-la, a transcendê-la: ascontradições do sentido reclamam um esclarecimento e uma composição; por isso asensação é um reenvio ao pensamento. Um reenvio e um indício: as diversascoisas, iguais ou semelhantes formulam o problema do igual e do semelhante quesejam perfeitamente tais. Assim a sensação desperta a Idéia a quem sabe adquirirconsciência do apelo que ela contem à essência eterna e perfeita, da qual sãocópia o grau do ser que está nas coisas e o saber que está em nós.
Há algo de escandaloso naexperiência sensível, e esse escândalo é sempre, no platonismo, o motor dopensamento. Esse escândalo é a experiência da contradição. Que uma realidadepossa ser ao mesmo tempo ela mesma e seu contrário, eis o que é propriamenteininteligível e de natureza a suscitar o esforço de reflexão devido a confusão aque se acha relegado o pensamento. Ora, assim são os objetos sensíveis, eles nãotêm qualquer permanência, qualquer identidade, são e não são o que se diz queeles são. As grandezas sensíveis são portanto relativas, podendo uma quantidadequalquer ser considerada tanto como o dobro de outra, quanto como a metade deuma terceira. Essa afirmação fica explícita no seguinte enigma: " Um homem quenão é um homem, vendo e não vendo um pássaro que não é um pássaro empoleiradonuma árvore que não é uma árvore, bate nele e não bate com uma pedra que não éuma pedra". Seu sentido é: "Um eunuco zarolho visa um morcego empoleirado numsabugueiro com uma pedra-pomes, e erra o alvo." Esse enigma ilustra bem aambigüidade do sensível e o mal-estar intelectual que dele decorre. A alma éentão levada a examinar por si mesma o que lhe causa problema, ela arranca dasseduções do sensível e se esforça por torná-lo inteligível, valendo-seunicamente de seus recursos.
Desse modo, há uma ilusãoconstitutiva de nossa primeira abordagem do real e o que nos engana é,inicialmente, nós mesmos. As sombras da caverna são essas aparências sobre aparede de nossos sentidos. Deformamos o real porque o apreendemosespontaneamente através de nossas impressões sensíveis, de nossos desejos,nossas paixões, nossos interesses, nossos hábitos. Esta impotência está ligada àpassividade do espírito acostumado desde a infância a receber sem exame muitascrenças falsas como verdadeiras.
Platão estabelece duas relaçõesimportantes. O que o reflexo, a sombra é para o objeto real, o visível é para ointeligível, e a opinião é para a ciência. E sobretudo ele sugere a partilha dointeligível : o que o reflexo é para o objeto sensível, os objetos matemáticossão para as Idéias puras.
Regressar à caverna significa,para o homem, por o que se viu à disposição da comunidade, dar-se conta elepróprio deste mundo, portanto o seu mundo, e obedecer ao vínculo de justiça queo liga à humanidade na sua própria pessoa e na dos outros. Deverá, pois,reabituar-se à obscuridade da caverna; e então verá melhor do que oscompanheiros que ali permaneceram e reconhecerá a natureza e os caracteres decada imagem, por ter visto o seu verdadeiro exemplar: a beleza, a justiça e obem. Só com o regresso à caverna, só comprometendo-se o mundo humano, o homemterá completado a sua educação e será verdadeiramente filósofo.

IMPRTÂNCIA DA COSMOLOGIA PLATÔNICA

O diálogo Timeu divide-se basicamenteem três partes: constituição política, cosmologia e antropogênese.
A parte política, que é exposta naprimeira fase do diálogo define a "constituição mais perfeita e os homens quedevem aplicá-la" A constituição grega não atribui a cada um uma única função deacordo com a sua natureza, mas todos têm de guardar a cidade contra os que lhecausarem mal. Deverão tratar com brandura os que governam, e tratar sem piedadeos inimigos. "Além disso, as mulheres deverão harmonizar suas naturezas com asdos homens e torná-las semelhantes"
A cidade tem como fundadora a deusacujo nome grego é Atena ( deusa da sabedoria, aquela que dá bravura einteligência aos heróis ).
Para os gregos a deusa estabeleceu aconstituição e a ordem gerada pela mesma, bem como a forma das armas.
Depois de harmonizar o Estado, suasleis, atribuições e funções dos homens; e principalmente a instituição políticana vida dos habitantes gregos, o diálogo remete-se a uma segunda etapa, acosmologia.
A geração ou criação do cosmospareceria significar um início no tempo e não uma existência ab aeterno: a menosque se considere a própria criação como processo eterno; e é exatamente isso quePlatão sugere no Timeu, onde afirma que o criador "ao ordenar todas essascoisas, permanecia, de acordo com a sua natureza, no seu próprioestado".
Sua cosmologia vai estar ligada aosquatro problemas metafísicos: se existe ou não Deus, se há alma humana, onde omundo começou e sobre a natureza do mundo.
Ao definir a natureza humana, Platão,classifica-a como possuindo uma alma imortal, uma alma mortal e um corpo humano(mortal). Conceituou a produção das doenças da alma análogas às do corpo. Adoença da alma é a demência, e esta decompõe-se em duas espécies – a loucura e aignorância.
No decorrer do texto aparecerá odemiurgo (deus com causa eficiente = inteligência), este não será um criador,mas um semi-criador.
O demiurgo vai ordenar a matériasensível. Irá fazer uma relação entre o mundo sensível e o inteligível, com afinalidade de estabelecer a harmonia.
O que teremos é uma dialética bipolardo real, onde de um lado o mundo inteligível representará a ordem e de outro omundo sensível será definido como a desordem.
O que Platão faz é apresentar ocontraste entre a ordem e a desordem como sucessão de fases.
A gênese contada pelo mito (demiurgo)será a da inscrição da ordem inteligível no interior de uma desordem originária,do caos, da maneira de ser das coisas "na ausência de Deus".
Como as idéias poderão produzir aordem? No que concerne à conduta humana, é claro que é por intermédio da parteinteligente da alma: o nôus, ou a razão.
Mas como o inteligível imprimirá suamarca no universo físico? A questão é abordada pelo demiurgo, onde Platão mostraque é preciso encarar essa ação de maneira análoga ao modo pelo qual as idéiasagem em nós. Isso exige um princípio mediador entre o sensível e o inteligível –ou, segundo o próprio texto do Timeu, entre "aquilo que se torna sempre e jamaisé" e "aquilo que continua existindo sem ter tido nascimento". Esse mediador,artesão do mundo, Platão chamou-o de demiurgo.
Não podemos esquecer que para Platãotoda idéia é una e múltipla ao mesmo tempo, porque é unidade de notas e deespécies e é pluralidade delas: daí a conclusão de que cada idéia dá lugar a umamultiplicidade infinita de participações, e vem a ter, como seus elementos, ouno e o múltiplo, o limite e o infinito.
As idéias são ao mesmo tempotranscendentes, "reais" e interiores; onde o sensível participa do inteligívelporque, segundo o que expõe o mito do demiurgo, a idéia não assume somente umafunção de inteligibilidade e uma função ontológica, mas também uma funçãocosmológica.
O Timeu constitui um vasto mitocosmogônico, no qual Platão – revelando a crescente influência do matematismopitagórico – descreve a origem do universo.
"...foi a visão do dia e da noite,dos meses, das revoluções dos anos, dos equinócios, dos solstícios que nos fezencontrar o número, que nos deu a noção de tempo e a possibilidade de estudar a natureza do todo"
Esse fragmento acima expõe muito bema importância da matemática dentro do pensamento platônico. Aqui fica explícitoque foi a partir da descoberta do número que pôde-se estudar a natureza, e principalmente ordená-la e harmonizá-la.
"Quando Deus resolveu ordenar o todo,no começo, o fogo, a água, a terra e o ar traziam vestígios da sua próprianatureza, mas estavam no estado em que tudo se encontra naturalmente na ausênciade Deus. Foi neste estado que ele os foi buscar, e começou por dar-lhes umaconfiguração distinta por meio das idéias e dos números. Que os tirou da suadesordem para associá-los da maneira mais bela e melhor possível"
Partindo do pressuposto que o fogo, aterra, a água e o ar são corpos, e estes, sendo gêneros corpóreos que tem sempreprofundidade; e por conseguinte esta é envolvida pela natureza da superfície, esendo de formação retilínea, é composta de triângulos. De acordo com opensamento platônico os corpos são compostos de triângulos, e portanto suasproporções relativas ao seu número, aos seus movimentos e às suas outraspropriedades realizou-se em parte com exatidão. Pois, Deus na medida em que anatureza da necessidade se prestava voluntariamente e cedia à persuasão ordenoutudo numa proporção harmoniosa.
Desse modo, o mundo está harmonizadoem si mesmo por meio da proporção, pois quando Deus começou a ordenar ouniverso, ... o fogo, a terra, o ar e a água ... antes de tudo, dotou-os deformas e de números. Portanto, gerando o universo numa proporçãoharmoniosa.
A partir dos elementos de origem douniverso ( fogo, terra, ar e água) o texto explicita todas as variedades queresultam das figuras, das combinações e das transformações mútuas dos corpos.Através da enunciação dessas divisões e proporções, pelas quais a alma cósmicacompreende originariamente em sitodas as relações de número e de medida, é queela é inteiramente número e harmonia e dá origem a todas as determinações denúmero e a toda harmonia no universo. E assim os arquétipos de toda a realidadecorpórea e espiritual são todos número e proporção.
Em seguida, Platão, tenta mostrar ascausas das impressões que estes elementos produzem em nós. A partir desse pontosurge a antropogênese, pois Platão vai explicar todas as impressões sensíveispara poder tratar da origem da parte mortal da alma.
Decorrente da explicação das impressões sensíveis pode-se conceituar o princípio imortal da alma, o corpo mortal e a alma mortal. Isso fica bem explicado no seguinte fragmento:"...quanto aos animais mortais, encarregou os seus próprios filhos de gerá-los.Estes imitaram-no e, quando receberam dele o princípio imortal da alma,construíram um corpo mortal em volta da alma e deram-lhe como veículo o corpo inteiro: depois, neste mesmo corpo, construíram ainda outra espécie de alma, e alma mortal, que contém paixões temíveis e fatais(...) Então misturando estas paixões com a sensação irracional e o amor que tudo ousa, compuseram segundo alei da necessidade a raça mortal"
Donde conclui-se que pela cosmologia obtemos como decorrência a antropogênese. A partir daí Platão chega a conclusão de que Deus é sensível feito à imagem do inteligível, e de que existem seres vivos mortais e imortais.


AMOR PLATÔNICO

Há,na doutrina platônica sobre a alma, um outro elemento importante: Eros, o amor.Platão ensinava que Eros é uma força que instiga a alma para atingir o bem; elenão cessa de mover a alma enquanto essa não for satisfeita. O bem almejado é determinado pela parte da alma que prevalecer sobre as outras. Se fosse a sensual, por exemplo, a alma não buscaria um bem verdadeiro, pois procuraria a satisfação dos desejos que Platão julgava os mais baixos, como o apetite e aganância. Segundo o filósofo, o melhor é que a alma seja conduzida por suaparte racional e que utilize a energia inesgotável do amor para se dirigir aobem verdadeiro - que compreende a justiça, a honra, a fidelidade; em suma, asvirtudes supremas.
Platão dedicou uma desuas obras exclusivamente ao discurso sobre o amor:O Banquete.(...) Para Platão, que usaSócrates como personagem, o amor é a insuficiência de algo e o desejo deconquistar aquilo de que sentimos falta. O amor dirige-se para o bem, cujaaparência externa é a beleza

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (parte V)

OS SOFISTAS E O PERÍODO SOCRÁTICO - MAIÊUTICA E IRONIA

O período pré-socrático foi dominado, em grande parte,pela investigação da natureza. Essa investigação tinha um sentido cosmológico.Era a busca de explicações racionaispara o universo manifestada na procura de um princípio primordial (arché) paratodas as coisas existentes. Seguiu-se a esse período uma nova fase filosófica,caracterizada pelo interesse no próprio homem e nas relações do homem com asociedade. Essa nova fase foi marcada, no início, pelos sofistas.
Etimologicamente, o termo sofista significa sábio.Entretanto, com o decorrer do tempo, ganhou o sentido de impostor, devido,sobretudo, às críticas de Platão.
Os sofistas eram professores viajantes que, por determinadopreço, vendiam ensinamentos práticos de filosofia. Levando em consideração osinteresses dos alunos, davam aulas de eloqüência e sagacidade mental. Ensinavamconhecimentos úteis para o sucesso dos negócios públicos e privados.
O momento histórico vivido pela civilização grega favoreceuo desenvolvimento desse tipo deatividade praticada pelos sofistas. Era uma época de lutas políticas e intensoconflito de opiniões nas assembléias democráticas. Por isso, os cidadãos maisambiciosos sentiam a necessidade de aprender a arte de argumentar em públicopara, manipulando as assembléias, fazerem prevalecer seus interesses individuaise de classe.
As lições sofísticas tinham como objetivo o desenvolvimentodo poder de argumentação, da habilidade retórica, do conhecimento de doutrinasdivergentes. Eles transmitiam todo um jogo de palavras, raciocínios e concepçõesque seria utilizado na arte de convencer as pessoas, driblando as teses dosadversários.
Segundo essas concepções, não haveria uma verdade única,absoluta. Tudo seria relativo ao homem, ao momento, a um conjunto de fatores ecircunstâncias.
Nascido em Atenas, Sócrates (469-399 a.C.) é tradicionalmente considerado ummarco divisório da história da filosofia grega. Por isso, os filósofos que oantecederam são chamados pré-socráticos e os que o sucederam, de pós-socráticos.O próprio Sócrates não deixou nada escrito, e o que se sabe dele e de seupensamento vem dos textos de seus discípulos e de seus adversários.
O estilo de vida de Sócrates assemelhava-se ao dos sofistas,embora não vendesse seus ensinamentos. Desenvolvia o saber filosófico em praçaspúblicas, conversando com os jovens, sempre dando demonstrações de que erapreciso unir a vida concreta ao pensamento. Unir o saber ao fazer, a consciênciaintelectual à consciência prática ou moral.
O autoconhecimento era um dos pontos fundamentais dafilosofia socrática. “Conhece-te a ti mesmo”, frase inscrita no templo de Apolo,era a recomendação básica feita por Sócrates a seus discípulos.
Sócrates percebe que a sabedoria começa pelo reconhecimentoda própria ignorância. “Só sei que nada sei” é, para Sócrates, o princípio dasabedoria, atitude em que se assume atarefa verdadeiramente filosófica de superar o enganoso saber baseado em idéiaspré-concebidas.
Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogoscríticos com seus interlocutores. Esses diálogos podem ser divididos em doismomentos básicos: a ironia (do grego eironeia, perguntar fingindo ignorar) e amaiêutica (de maieutiké, relativo ao parto).
Na linguagem cotidiana, a ironia tem um significadodepreciativo, sarcástico ou de zombaria. Mas não é esse o sentido de ironiasocrática. No grego, ironia quer dizer interrogação. Sócrates interrogava seusinterlocutores sobre aquilo que pensavam saber. O que é o bem? O que é ajustiça? São exemplos de algumas perguntas feitas por ele.
Com habilidade de raciocínio, procurava evidenciar ascontradições afirmadas, os novos problemas que surgiam a cada resposta. Seuobjetivo inicial era demolir, nos discípulos, o orgulho, a ignorância e apresunção do saber.
A ironia socrática tinha um caráter purificadorna medida em que levava os discípulos a confessarem suas próprias contradições eignorâncias, onde antes só julgavam possuir certezas e clarividências.
Libertos do orgulho e da pretensão de que tudo sabiam, osdiscípulos podiam iniciar o caminho da reconstrução das próprias idéias.
Nesta segunda fase do diálogo, o objetivo deSócrates era ajudar seus discípulos aconceberem suas próprias idéias. Essafase do diálogo socrático, destinada à concepção de idéias, era chamada demaiêutica, termo grego que significa arte de trazer à luz.
A doutrina socrática identifica o sábio e o homem virtuoso.Derivam daí diversas conseqüências para a educação, como: o conhecimento tem porfim tornar possível a vida moral, o processo para adquirir o saber é o diálogo,nenhum conhecimento pode ser dogmaticamente, mas como condição para desenvolver a capacidade de pensar, todaa educação é essencialmente ativa, e por ser auto-educação leva ao conhecimentode si mesmo, a análise radical do conteúdo das discussões, retirado docotidiano, leva ao questionamento do modo de vida de cada um e, em últimainstância, da própria cidade.
Interessado somente na prática da virtude e na busca daverdade, contrariava os valores dogmáticos da sociedade ateniense. Por isso,recebeu a acusação de ser injusto com os deuses da cidade e de corromper ajuventude. No final do processo foi condenado a beber cicuta (veneno).
A história de sua acusação, defesa e execução é contada nosbelos diálogos de Platão, Apologia de Sócrates e Fédon.
Diferenças ente Sócrates e os sofistas:
-o sofista é um professor ambulante.Sócrates é alguém ligado aos destinos de sua cidade.
-O sofista cobra para ensinar. Sócratesvive sua vida e essa confunde-se com a vida filosófica: “ Filosofar não éprofissão, é atividade do homem livre”
-O sofista “sabe tudo”, e transmite umsaber pronto, sem crítica ( que Platão identifica com uma mercadoria, que osofista exibe e vende). Sócrates diz nada saber e, colocando-se no nível de seuinterlocutor, dirige uma aventura dialética em busca da verdade, que está nointerior de cada um
-O sofista faz retórica. Sócrates fazdialética. Na retórica o ouvinte é levado por uma enxurrada de palavras que, seadequadamente compostas, persuadem sem transmitir conhecimento algum. Nadialética, que opera por perguntas e respostas, a pesquisa procede passo apasso, e não é possível ir adiante sem deixar esclarecido o que ficou paratrás.
O sofista refuta por refutar, para ganhar a disputa verbal. Sócrates refuta parapurificar a alma de sua ignorância
Referência bibliográfica:
ARANHA, MariaLúcia de Arruda. MARTINS, Maria Helena Pires.Temas de Filosofia. SãoPaulo: Ed. Moderna, 1992.
CHAUÍ,Marilena. Convite à Filosofia. SãoPaulo: Ed. Ática, 1995.
COTRIM, Gilberto.Fundamentos da Filosofia – Ser, Saber eFazer.São Paulo: Ed.Saraiva, 1997.

CURSO BÁSICO DE FILOSOFIA (Parte IV)

OS PRÉ-SOCRÁTICOS

Aqui você encontrará os seguintes pensadores pré-socráticos:Tales de Mileto , Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Xenófanes de Cólofon, Heráclito de Éfeso, Pitágoras de Samos, Parmênides de Eléia, Empédocles de Agrigento , Anaxágoras de Clazomena e Demócrito de Abdera.

A passagem da consciência mítica e religiosa para a consciência racional e filosófica não foi feita de um salto. Esses dois tipos de consciência coexistiram na sociedade grega.
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia grega é conhecida como período pré-socrático. Esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto (623-546 a.C.) até Sócrates (468-399 a.C.).
Os primeiros filósofos buscam a arkhé, o princípio absoluto (primeiro e último) de tudo o que existe. A arkhé é o que vem e está antes de tudo, no começo e no fim de tudo, o fundamento, o fundo imortal e imutável, incorruptível de todas as coisas, que as faz surgir e as governa. É a origem, mas não como algo que ficou no passado e sim como aquilo que, aqui e agora, dá origem a tudo, perene e permanentemente.
No vasto mundo Grego, a filosofia teve como berço a cidade de Mileto, situada na Jônia, litoral ocidental da Ásia Menor. Caracterizada por múltiplas influências culturais e por um rico comércio, a cidade de Mileto abrigou os três primeiros pensadores da história ocidental a quem atribuímos a denominação de filósofos. São eles: Tales, Anaximandro e Anaxímenes.
O objetivo dos primeiro filósofos era construir uma cosmologia (explicação racional e sistemática das características do universo) que substituísse a antiga cosmogonia (explicação sobre a origem do universo baseada nos mitos).
Em outras palavras, os primeiros filósofos queriam descobrir, com base na razão e não na mitologia, o princípio substancial (a arché) existente em todos os seres materiais.
Os pré-socráticos ocuparam-se em explicar o universo e examinavam a procedência e o retorno das coisas. Os primeiros filósofos gregos tentaram responder à pergunta: Como é possível que todas as coisas mudem e desapareçam e a Natureza, apesar disto, continua sempre a mesma?
Para tanto, procuraram um princípio a partir do qual se pudesse extrair explicações para os fenômenos da natureza. Um princípio único e fundamental que permanecesse estável junto ao sucessivo vir-a-ser. Tales vai dizer que o princípio de tudo é a água; Anaximandro, o infinito indeterminado, Anaxímenes, o ar; Heráclito, o fogo; Pitágoras, o número; Empédocles, os quatro elementos: terra, água, ar, fogo, em vez de uma substância única.
Vejamos as reflexões filosóficas de alguns pensadores pré-socráticos:

Tales de Mileto (625-558 a.C.)
Tales foi comerciante de sal e de azeite de oliva, e enriqueceu como proprietário de prensas de azeitona durante uma safra promissora. Sabe-se que Tales previu um eclipse ocorrido em 585 a.C.
De suas idéias quase nada é conhecido. Aristóteles o chama de fundador da filosofia, e lembra que a sua doutrina baseia-se na água como o elemento primordial de todas as coisas (physis, fonte originária, gênese), e que para suportar as transformações e permanecer inalterada, a água deveria ser um elemento eterno.
Atribui-se a Tales a afirmação de que "todas as coisas estão cheias de deuses", o que talvez pode ser associado à idéia de que o imã tem vida, porque move o ferro. Essa afirmação representa não um retorno a concepções míticas, mas simplesmente a idéia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva (hilozoísmo). Além disso, elaborou uma teoria para explicar as inundações do Nilo, e atribui-se a Tales a solução de diversos problemas geométricos (exemplo: teorema de Pitágoras).
Tales foi um dos filósofos que acreditava que as coisas têm por trás de si um princípio físico, material, chamado arqué. Para Tales, o arqué seria a água. Tales observou que o calor necessita de água, que o morto resseca, que a natureza é úmida, que os germens são úmidos, que os alimentos contêm seiva, e concluiu que o princípio de tudo era a água. Com essa afirmação deduz-se que a existência singular não possui autonomia alguma, apenas algo acidental, uma modificação. A existência singular é passageira, modifica-se. A água é um momento no todo em geral, um elemento. Tales com essa afirmação queria descobrir um elemento físico que fosse constante em todas as coisas. Algo que fosse o princípio unificador de todos os seres.
Principais fragmentos: “... a água é o princípio de todas as coisas...”.
“... todas as coisas estão cheias de deuses...”.
“... a pedra magnética possui uma alma porque move o ferro..."

Anaximandro de Mileto (610-546 a.C.)
Discípulo e sucessor de Tales. Anaximandro recusa-se a ver a origem do real em um elemento particular; todas as coisas são limitadas, e o limitado não pode ser, sem injustiça, a origem das coisas. Do ilimitado surgem inúmeros mundos, e estabelece-se a multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada através da separação dos contrários em conseqüência do movimento eterno. Para Anaximandro o princípio das coisas - o arqué - não era algo visível; era uma substância etérea, infinita. Chamou a essa substância de apeíron (indeterminado, infinito). O apeíron seria uma “massa geradora” dos seres, contendo em si todos os elementos contrários.
Anaximandro tinha um argumento contra Tales: o ar é frio, a água é úmida, e o fogo é quente, e essas coisas são antagônicas entre si, portanto um o elemento primordial não poderia ser um dos elementos visíveis, teria que ser um elemento neutro, que está presente em tudo, mas está invisível.
Esse filósofo foi o iniciador da astronomia grega. Foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico totalmente.
De acordo com ele para que o vir-a-ser não cesse, o ser originário tem de ser indeterminado. Estando, assim, acima do vir-a-ser e garantindo, por isso, a eternidade e o curso do vir-a-ser.
O seu fragmento refere-se a uma unidade primordial, da qual nascem todas as coisas e à qual retornam todas as coisas. Anaximandro recusa-se a ver a origem do real em um elemento particular. Do ilimitado surgem inúmeros mundos, e estabelece-se a multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada através da separação dos contrários em conseqüência do movimento eterno.
Principais fragmentos: “... o ilimitado é eterno...”
“... o ilimitado é imortal e indissolúvel...”

Anaxímenes de Mileto (588-525 a.C.)
O princípio de tudo, o arqué, seria o ar e as coisas da natureza seriam o ar condensado em vários graus. A rarefação e condensação do ar forma o mundo. A alma é ar, o fogo é ar rarefeito; quando acontece uma condensação, o ar se transforma em água, se condensa ainda mais e se transforma em terra, e por fim em pedra. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe a sua luz do Sol.
Para esse filósofo o ar representa um elemento invisível e imponderável, quase inobservável e, no entanto, observável: o ar é a própria vida, a força vital, a divindade que “anima” o mundo.
Principais fragmentos: “... do ar dizia que nascem todas as coisas existentes, as que foram e as que serão, os deuses e as coisas divinas...”
Xenófanes de Cólofon (570-528 a.C.)
O elemento primordial para ele é a terra, através do elemento terra desenvolve sua cosmologia. Combate acirradamente a concepção antropomórfica dos deuses, e defende um Deus único, eterno, imóvel.
Fragmentos principais: “... tudo sai da terra e tudo volta à terra...”
“... tudo o que nasce e cresce é terra e água..."
Heráclito de Éfeso (540-476 a.C.)
Cognominado de "obscuro". Afirmava que todas as coisas estão em movimento como um fluxo perpétuo. O escoamento contínuo dos seres em mudança perpétua, e que esse se processa através de contrários. A lei fundamental do Universo é o devir, que significa contínuas transformações. Tudo flui e nada fica como é. Coisa alguma é estável. Tudo segue seu curso. Para Heráclito o princípio das coisas é o fogo. O fogo transforma-se em água, sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade transforma-se em terra. Sucessivamente, a terra transforma-se em água e a água, em fogo. Todas as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do que será depois. Afirmou: "Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou."
Grande representante do pensamento dialético. Concebia a realidade do mundo como algo dinâmico, em permanente transformação. Daí sua escola filosófica ser chamada de mobilista (=movimento). Para ele, a vida era um fluxo constante, impulsionado pela luta de forças contrárias. Assim, afirmava que “a luta é a mãe, rainha e princípio de todas as coisas”. É pela luta das forças opostas que o mundo se modifica e evolui.
Heráclito imaginava a realidade dinâmica do mundo sob a forma de fogo, com chamas vivas e eternas, governando o constante movimento dos seres.
Ele estabelece a existência de uma lei universal e fixa (o logos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamentalmente da harmonia universal, harmonia feita de tensões.
“Tudo flui”. Nada neste nosso mundo é permanente. Tudo está mudando o tempo todo. A mudança é a lei da vida e do universo.
Ele concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. O ser é o um, o segundo é o devir. O absoluto se dá a unidade dos opostos. Para ele a essência é a mudança.
Principais fragmentos: “... Todas as coisas estão em movimento...”
“... O movimento se processa através de contrários.."
“... Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia...”
“... descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos...”
Pitágoras de Samos
É dele a idéia de que o número é o princípio ordenador de todas as coisas, os quais representam a ordem e a harmonia. Assim, a essência dos seres, teria uma estrutura matemática. Para Pitágoras, aquele que compreende todas as relações numéricas chega à essência das coisas. Portanto, a substância das coisas é o número. Pitágoras interpretou a forma dualista da teoria dos opostos e a descoberta de ordem matemática, sobretudo do famoso teorema que lhe é atribuído.
Principais Fragmentos: “... o princípio das matemáticas é o princípio de todas as coisas.."


Parmênides de Eléia (530-460 a.C.)
É a doutrina mais profunda de todo o pensamento socrático, mas também a mais difícil interpretação. O poema divide-se: o prólogo, o caminho da verdade e o caminho da opinião. Parmênides afirma que a única coisa eterna é o ser; as mudanças são ilusórias. Não haveria, por conseguinte, mudanças nas coisas. Para conhecer o conteúdo verdadeiro e objetivo das coisas é necessário pensar. Conhecer o ser é conhecer a verdade. Parmênides combateu Heráclito que diz que tudo flui. Para Parmênides é absurdo e impensável considerar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. Parmênides considera que o movimento existe apenas no mundo sensível, e no mundo inteligível o ser é imóvel.
Defendia a existência de dois caminhos para a compreensão da realidade. O primeiro é o da filosofia, da razão, da essência. O segundo é o da crendice, da opinião pessoal, da aparência enganosa, que ele considerava a “via de Heráclito”.
É o primeiro filósofo a formular os princípios lógicos de identidade e de não-contradição, desenvolvidos depois por Aristóteles.
Ao refletir sobre o ser, pela via da essência, o filósofo eleático conclui que o ser é eterno, único, imóvel e ilimitado. Essa é a via da verdade pura, a via a ser buscada pela ciência e pela filosofia.
Ele afirma que o imóvel, o limitado e o esferóide é Deus.
Para ele tudo não apenas deve ser sem-princípio e não-criado como também deve ser preenchido, um plenum. Isso gera uma visão do universo como uma única entidade realmente imutável. Tudo é um.
Principais fragmentos: “... pois pensar e ser é o mesmo...”
“... o ser é, e o nada, ao contrário, nada é...”
“... resta-nos assim um único caminho: o ser é...”
Empédocles de Agrigento (490-435 a.C.)
O princípio gerador de todas as coisas não seria um único elemento, mas quatro elementos: terra, ar, água e fogo, que se misturam em diferentes proporções e formam as várias substâncias que encontramos no mundo. O que unia e desunia os quatro elementos eram dois princípios: o amor e a luta. Os quatro elementos e os dois princípios seriam eternos, mas as substâncias formadas por eles seriam pouco duradouras.
Principais fragmentos: “... duas coisas quero dizer; às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade..”
Anaxágoras de Clazomena (500-428 a.C.)
Haveria um número infinito de elementos que Anaxágoras chamou de homeomerias, ou sementes invisíveis, que diferiam entre si nas qualidades. Todas as coisas resultariam da combinação das diferentes homeomerias.
Fragmentos Principais: “ ... Todas as coisas estavam juntas, ilimitadas em número e pequenez, pois o pequeno era ilimitado...”
Demócrito de Abdera (460-370 a.C.)
Acha que tudo o que existe é composto de átomos, partículas invisíveis e indivisíveis. Os átomos, infinitos em número, combinam-se uns aos outros e formam todas as coisas. Os átomos são invisíveis porque são muito pequenos e também porque não possuem qualidades. No universo somente existiriam átomos e vácuo (que representaria a ausência do ser). Todas as qualidades das coisas como cor, cheiro, peso, som, beleza, vida e outras, nada mais são do que movimento e modos de ser diferentes dos agregados de átomos que formam a respectiva coisa. Para ele é o acaso ou a necessidade que promove a aglomeração de certos átomos e a repulsão de outros. O acaso é o encadeamento imprevisível de causas. A necessidade é o encadeamento previsível e determinado entre causas. Sua concepção mecanicista – “tudo o que existe no universo nasce do acaso ou da necessidade” Tudo tem uma causa.
Fragmentos Principais: “...os homens fizeram do acaso uma imagem
como pretexto para a sua própria imprudência...”

Outros: Zenão de Eléia,Melisso de Samos, Filolau de Cróton, Arquitas de Tarento, Diógenes de Apolônia e Leucipo de Abdera.
Bibliografia:
CONVITE À FILOSOFIA, Marilena Chauí, Editora Ática, 8a edição, 1997
FILOSOFANDO - Introdução à Filosofia, Maria Lúcia de Arruda Aranha , Maria Helena Pires Martins, Editora Moderna, 2a edição, 1994
BORNHEIM, G. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1999.